A casa de temporada [Cássio Zanatta]

Posted on 12/02/2019

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A casa de temporada é a maior distância entre expectativa e realidade já medida pelo homem. Em dezembro, ela estará em todos os seus sonhos e desejos de vingança. Seu Natal será mais alegre, seu Reveillon, promissor, porque breve haverá a casa de temporada.

Ao chegar, as crianças estarão impossíveis. O cachorro, ao contrário, vai estar murcho, deslocado. Mas você vai levar a bola, o que resolverá os dois casos. Sua mulher logo providenciará a lista da quitanda e supermercado – inclua na lista os itens “rede” e “cerveja”, que não vão estar lá. As árvores em volta da casa, flamboyants e acácias, estarão floridas e nem vai estar tão quente como você esperava.

Mas sempre falta água na casa de temporada. O gás acaba no segundo dia da temporada e o entregador de gás só passa daqui a seis. Já a pizza para viagem chega rápido e surpreendentemente boa. Sempre aparece algum parente distante com mulher (viciada em assaltar geladeiras), dois filhos e um cachorro que não se dará com o seu para passar uns dias – nunca menos que uma semana.

Não tem lâmpada, não tem açúcar, a resistência do chuveiro elétrico queimou, mas você não vai consertar porque do segundo parágrafo para este a temperatura aumentou que foi uma coisa e é melhor mesmo banho frio. E como se cria garnisé e araponga em volta da casa de temporada!

A porta de entrada está sempre emperrada, é preciso jeito e alguma força para abri-la. No esforço, o trinco do outro lado vai cair no chão e produzir um barulho tão maior que o razoável (estranho você sentir saudades dessas coisas semanas depois). E certo que haverá uma paixão brevíssima, daquelas sem ilusões ou sofrimento. Para os devaneios existem as janelas das casas de temporada.

O que há na realidade é uma perereca no banheiro, dessas meio transparentes, bem no ralo do chuveiro, e você não vê nenhum problema nisso, mas as mulheres sim e adivinha quem é intimado a dar um sumiço no bicho?

Os vidros das janelas abrem a contragosto, mas as gavetas estão cheias daqueles espirais de matar pernilongo que lá estão desde o verão de 88. E certo que haverá uma marinha triste, desbotada, um berimbau e uma esteira de praia pendurada na parede da sala da casa de temporada.

A chance de haver um vizinho que gosta de escutar pagode alto às 6 da manhã é grande. A chance desse mesmo vizinho ser ótimo de prosa e bom churrasqueiro também é razoável. E na fila da padaria você vai ouvir falar mal do senhorio da casa, e que a antiga proprietária, sim, é que era um doce.

Dorme-se pesado e em oito num quarto, e essa será uma boa recordação da sua vida.

Breve é a temporada na casa de temporada. Semanas viram horas; noites, quarenta e sete minutos. Janeiro logo acaba e é preciso devolver a casa. No próximo ano, alguém vai sugerir uma pousada, dá menos trabalho. Mas não se iludam: enquanto houver criança, cachorro, praia e férias, haverá uma casa de temporada.

Breve é a temporada na casa de temporada. Breve é a vida. Breve, uma crônica. Sigamos.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras e excepcionalmente nesta segunda-feira. 

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Posted in: Crônicas