Meninos e meninas do Brasil [Cícero Belmar]

Posted on 11/02/2019

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Quando sonham, neste mundo tão pesado e injusto, as crianças desassistidas do Brasil querem uma vida diferente porque essa que lhes coube é Severina demais. Desejam outra realidade, sem as esperanças covardes, sem as necessidades infindáveis, sem as contas da família que nunca fecham ao fim de cada mês.

E por que deveriam ser comedidos (ou comedidas), quando sonham, se não custa nada desejar ir para o Flamengo, São Paulo, Vasco, Corinthians, esses times da elite do futebol?  O tamanho da utopia é proporcional às restrições, ambas medem iguais e ao contrário. As grandes equipes é que ainda permitem devanear.

Afinal, todo mundo idealiza um bom salário no futuro, para mudar de vida; ter o talento reconhecido e respeitado; e acumular glória e fama, enquanto craque.  O problema é que, para mover as fantasias, do mundo onírico para a vida cotidiana, quem primeiro vai embora é a poesia.

Crianças se adultizam muito cedo e os sonhos partem com elas. Com mochilas quase vazias nas costas, saem de casa, vão morar a centenas de quilômetros das famílias. Mas, a aspiração à felicidade é o combustível que move a alma.

Dia 8 de fevereiro de 2019.

Durante uma noite de sono, quando nos distraímos do corpo físico e nos transportamos para o mundo dos desejos, um incêndio destruiu a vida de dez garotos, entre 14 e 17 anos, no Ninho do Urubu, Vargem Grande, Rio de Janeiro. É um dos centros de treinamento, para categoria de base, do Flamengo, que já revelou numerosos talentos do futebol nacional.

Arthur, Athila, Bernardo, Christian, Vítor, Pablo, Jorge, Samuel, Gedson e Rykelmo deram prioridade ao sonho. Viveram por ele. Ainda estavam naquela fase em que a partícula de esperança está sendo cultivada, num canto frágil do coração, regada com muito cuidado, para crescer e florir.

Porque a esperança é assim, ela às vezes chega disfarçada, pequena, driblando as dores, e se instala aos poucos. Para depois se transformar na própria vida.

Os sonhos são uma excentricidade da alma. Vive-se e morre-se por eles.

No mundo espiritual, imagino, os sonhos, como os desejos, não dependem do corpo físico para existir. Eles, por si só, constituem uma forma de viver. É lá onde os meninos do Flamengo estão plenos, rumo à Luz.

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas