Curtas – e talvez só isso [Raul Drewnick]

Posted on 10/02/2019

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Estilo é o tipo de coisa que sempre nos faz falta, embora nunca saibamos muito bem o que é.

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O romantismo ainda é uma forma de nos mostrarmos ridículos com certo charme.

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Quem semeia tolices colhe banalidades.

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Descobri, e com atraso, que sou só um homem sensível que tentou aproveitar-se disso para se exibir como um ser especial, usando os mais rasteiros truques poéticos.

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Ser escritor deve ser uma delícia. Qualquer dia hei de perguntar a um.

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Escrever todos os dias foi no começo um compromisso e, em seguida, uma obsessão. Tantas décadas depois, é uma tolice.

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Se há alguma coisa a ser louvada em mim é a persistência com que não tenho conseguido ser poeta.

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Todo inimigo figadal tem maus bofes.

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Tudo bem, escrever é uma espécie de jogo, mas quem disse que devemos perder sempre?

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Dão-nos um aplauso ou dois, e lá se vai a modéstia: queremos mais duzentos depois.

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A riqueza de detalhes é às vezes uma pobreza de estilo.

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Uma falha dos provérbios é acreditarem que são infalíveis. Outra é proclamarem que são.

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O ato de burilar, que foi tão caro aos parnasianos mais radicais, parece-me hoje um vício bizarro como o de sentar-se no sofá, apagar a luz e apalpar o sexo de uma boneca.

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Talvez você gostasse de me ver. Estou melhor, acho. Livrei-me do conhaque e dos sonetos.

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Há escritores de dois tipos: os que falam de si mesmos e os que falam de si próprios.

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Eu poderia ser um homem memorável, se os outros se lembrassem de mim.

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Enquanto o escritor decide se coloca uma vírgula, ou duas, o sujeito da frase cria coragem e passa uma cantada no objeto direto.

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Ora essa, os poetas bissextos andam reivindicando aposentadoria integral…

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Perguntam ao filho do escritor o que o pai faz. O menino responde: “Ele mexe com essas coisas de literatura.”

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas