Dia de amar a casa [Mariana Ianelli]

Posted on 09/02/2019

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Hoje não vamos ao parque nem à praça nem ao museu. Há inesperados amigos lá fora, a surpresa das primeiras goiabas no chão, os gatos debaixo dos carros estacionados, mas nem por aí nós iremos hoje. Tem dias assim, que tiramos para amar a casa e gozar dos seus recantos mal percebidos. É quando a sala deixa de ser sala e vira um barco a vela, uma cidadezinha, um hangar para aviões bebês. Nosso canteiro de sete ervas pode render uma hora inteira de sensações e histórias com abelhas. O corredor? Um passeio de locomotiva por uma galeria de desenhos que farfalham no vento. Nos demoramos num vão de estante, debaixo da mesa, atrás das portas, entre samambaias, nos demoramos em todos esses recantos onde não havendo devaneio não haveria demora, a menos que fôssemos gatos ou pintores de ateliê. Sim, a nossa casa é também um pouco um ateliê, um pouco somos uma família de samambaias, abelhas, gatos e aviões bebês, e em nada disso há intenção de escola, apenas uma dança de giz parindo redemoinhos e todas as letras ainda ali enoveladas, alheias ao regime da cartilha. Azul de mosca varejeira. Rosa de porco vivo. Até o lixo tem seu momento no nosso ateliê de horas, este senhor sábio, misterioso e barrigudo que engole a nossa tralha e no calar da madrugada vai com os outros lixos, de outras casas, de outras famílias. Cada mínima fresta chama o olho, cada sombra-de-estar pede tempo. Uma criança sendo criança vale um ensaio de poética de Octavio Paz, compreendemos analogias no ato, operações alquímicas na prática. Então o poema é um pequeno cosmo animado? A nossa casa também. E todas as casas com crianças sendo crianças, e gatos, e pintores de ateliê.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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