Na rua [Madô Martins]

Posted on 08/02/2019

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Não sei por onde ele anda, agora. Fazia parte da paisagem, na calçada dos vários shoppings da cidade, e sempre me cumprimentava com um sorriso, porque as mãos estavam ocupadas em fazer música ao violino. Conhecemo-nos há vários anos. Estudante de Música em um curso para jovens carentes, tocava com outros dois colegas, nas feiras livres. Aos domingos, eu acordava ao som de Beatles e alguns clássicos mais populares, como Vivaldi. Acordar e fazer a feira eram rotinas mais agradáveis.

Formado, passou a tocar sozinho, nos pontos mais movimentados da cidade, a caixa do violino aberta para receber contribuições. Assim sobreviveu muito tempo, casou, teve filho, cursou a segunda faculdade, registrou-se na Ordem dos Músicos do Brasil, gravou CDs. Soube tudo isso, quando nos falávamos rapidamente e por suas postagens, onde sempre se mostrava feliz.

Passou a tocar em casamentos e como acompanhante em shows de terceiros. Mas continuou a se apresentar nas ruas, com muito prazer e liberdade. De vez em quando, ensaiava a Marcha Nupcial para o casamento que aconteceria mais tarde, e era divertido ouvi-la em plena rua, em meio ao tráfego agitado e pessoas apressadas.

Criou escola. Logo outros músicos iniciantes passaram a usar as calçadas para mostrar o que sabiam e colher alguns trocados. Parecia até que a cidade ficava na Europa, onde a prática é tão comum. Moro perto de um dos shoppings e, na sua vez de tocar, era confortável escutar sua música de longe, sabendo que ganharia mais um sorriso à entrada.

O verão chegou inclemente, seguido de chuvas violentas, forçando-o a adaptações. Agora procurava a proteção das árvores, para resguardar também a caixa de som e o instrumento. Até que alguém da vizinhança reclamou de sua presença constante e alguma autoridade o baniu dali.

Não o encontrei no shopping de outro bairro nem nas calçadas onde costumava ficar. E agora, não imagino por onde anda, porque nem mesmo novas postagens chegam por aqui, contando as novidades. Pensando nele, lembro do filme Violinista no Telhado, em que o protagonista enfrenta dificuldades imensas, mas não perde a dignidade: “Sou como o bambu, que verga, mas não quebra”, é uma das frases da personagem, que jamais esqueci e me serve de inspiração, nos maus momentos. Que meu amigo violinista de rua diga o mesmo e nunca desista de seu sonho.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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