Estatuto do desalmamento [Rubem Penz]

Posted on 18/01/2019

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Artigo primeiro: pelo presente estatuto, torna-se imediatamente desprovido de alma todo aquele que obtiver, mesmo por meio legítimo, qualquer arma de fogo, seja revólver, pistola ou espingarda, sobretudo quando for combinada com a devida munição.

Parágrafo único: a posse ou guarda consciente e voluntária de armas de fogo, disparos realizados ou não, torna a pessoa desalmada em ato contínuo e definitivo; todo e qualquer argumento em contrário será percebido como justificativa para a ausência de alma.

Artigo segundo: revoga-se o direito de combinar a presença de alma com atos de legítima defesa praticado com armas de fogo, ainda que diante de violação incontestável de propriedade ou integridade física, sua ou de próximos, até em reação proporcional.

Parágrafo único: permanecerá com amplo direito à posse de alma quem chorar, esconder-se ou implorar pela vida; sofrer as dores impostas por violações supracitadas (ou o esbulho decorrente delas); perder pais, filhos ou cônjuges ao abrir mão de defesa armada; reclamar nas redes sociais depois de acontecido; acomodar-se, conformar-se, perdoar o(a) agressor(a), justificar as agressões e/ou culpar-se por elas.

Artigo terceiro: abole-se o direito de possuir alma a todos os que, direta ou indiretamente, defenderem o direito à posse ou guarda legal de armas de fogo (incluindo, principalmente, cronistas irônicos), e com denotada razão se eles próprios decidem não andar armados ou guardarem armas em casa.

Parágrafo único: não serão aceitos quaisquer tipos de argumentos lógicos, estatísticas favoráveis ou apelos ao bom senso para resgatar a alma de quem admite a hipótese de que pessoas possam ter armas de fogo em casa, sob risco de criar precedentes perigosos.

Derradeiro artigo: após a vigência deste estatuto, a paz reinará na consciência de quem considera intolerável reações violentas para combater ações violentas, ambas praticadas, a partir das presentes resoluções, em idêntico dolo, por desalmados.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas