Pragas de verão [Madô Martins]

Posted on 11/01/2019

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Alguém desliga o forno, por favor? Imagine, aquecimento global é invenção de mal intencionados… Dia desses, minha cidade teve sensação térmica de 47 graus, e estamos à beira-mar. Nunca se vendeu tantos aparelhos de ar condicionado e ventiladores por aqui. E temo que, como em outros tempos, comece a faltar água, pois com a temporada a população triplica e a infraestrutura é a mesma. Até agora, a maioria das praias está própria para banho, mas com a frequência de banhistas aumentando a cada dia, será difícil preservar a limpeza marinha.

Diversas campanhas já circulam na mídia: cuidado com os cães no asfalto quente, economia no tempo de chuveiro, ingestão de água contra desidratação, uso de protetor solar, chinelos,  chapéu, óculos escuros. Lembro dos pobres australianos, que não podem sair de casa sem se proteger do sol, por causa do buraco na camada de ozônio sobre suas cabeças. Aqui, estamos assim: muita gente se refugiando nos shoppings e cinemas, por causa do ar condicionado permanente, ou mesmo, indo a bancos e supermercados sem reclamar, pelo mesmo motivo.

Bebês sofrem com as brotoejas, idosos passam mal, todos os carros particulares passam com os vidros fechados, passageiros escolhem os ônibus com ar condicionado. Bancas de jornais próximas à orla agora expõem boias infantis, brinquedos para a areia, raquetes de frescobol, sandálias de borracha, diversas marcas de protetores solares. Na linha abaixo do Equador, é verão, e chegou com alarde.

Assim, transpirando dia e noite, a paciência encurta. Na tevê, a qualquer momento, estamos diante da imagem ou fala do eleito, pondo à prova nossa resiliência. Sempre penso naquele desenho do Pica-pau que homenageia Orson Wells no episódio dos marcianos invadindo a Terra. Bandos de cupins alienígenas chegam ao planeta e todos os canais da televisão alertam a população, de forma alarmista. O protagonista zapeia a tevê doméstica, inconformado com a mesmice, mas os intrusos estão sempre lá, mastigando qualquer madeira, de paredes a lápis.

Por fim, o Pica-pau os domina com fitas adesivas e os transforma em apontadores, abridores de lata e coisas assim, num empreendimento bastante lucrativo… Infelizmente, não temos a mesma mágica. Pelo menos, nos próximos quatro anos, os cupins estarão por toda parte, consumindo nosso patrimônio e nosso futuro com várias mordidas.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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