Desacreditado [Tiago Maria]

Posted on 10/01/2019

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“Diz a ela que me viu chorar, você pode usar o argumento que quiser”.

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– Não, não é isso, não é bem isso, sabe, tem que ser mais direto, entende, mais direto.

– Sim, sim, entendi, mas então por que não vai lá e explica tudo de uma vez?

– É que não é fácil, né? Não é fácil dizer tudo, assim, na lata.

– Entendo.

– E um e-mail, que tal?

– Muito formal.

– E se eu mandasse uma mensagem pelo whatss?

– Muito frio.

– Acho que vou ligar, mesmo…

– Por telefone é mais fácil ela dizer não.

– É verdade.

– Vai lá, diz que precisa falar com ela pessoalmente e pronto.

– E a coragem?

– Então marca um almoço, aproveita a hora da sobremesa e fala.

– Ela não come doce.

– Então, sei lá, tenta no intervalo, um cafezinho, uma conversa olho no olho.

– Mas ela não quer me ver nem pintado de ouro!

– Diz que é a última vez, que não vai mais acontecer, que a coisa fugiu do controle, sei lá.

– Vou apelar usando as crianças, azar, vai que ela se compadece.

– Isso! Boa! Sensibiliza ela.

– Vai ser assim então, amanhã eu chego antes de abrir, espero ela entrar e digo tudo na lata, sem pensar muito.

– Boa, depois me conta como foi.

….

– Bom dia, a gerente de empréstimos para pessoa física já chegou?

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas