Mortes urgentes [Elyandria Silva]

Posted on 08/01/2019

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Ninguém deveria morrer em dias de céu azul perfeito. Um céu é perfeito quando está completamente azul, em toda a extensão, sem nenhuma nuvem. Elas são lindas, em suas diversas formas e tamanhos, as nuvens, mas às vezes mancham o céu.

Ela dormiu, mas não acordou. O que acontece com a vida quando ela não segue,é encerrada abruptamente. Dormir com alguém que amamos e a pessoa não acorda, ali do lado. De repente, a vida, que ontem de noite era boa, de manhã torna-se escura, incompreensível, ruim. E nunca mais será igual àquela noite, ante de irem dormir, quando a normalidade do estar junto parecia que seria eterna.

Uma pessoa querida partiu assim deixando o fim de semana cheio de perguntas, que nunca serão respondidas, de perplexidades que nunca se derreterão no vazio dos dias. Infarto fulminante, por volta das 5h da manhã. Essas partidas súbitas, essas mortes que têm urgência de acontecer, que não podem esperar, que a todos emudece, não é coisa desse mundo, por isso não adianta tentar entender, porque é do mundo de lá.

Olga sempre me encontrava no supermercado concentrada, pensamento longe, vagando, com o olhar perdido; eu sempre encontrava Olga alegre, rápida, sorridente, perguntava dos livros, dizia que queria vê-los, que tinha que marcarmos um encontro na casa dela. Queria ver a logomarca que o filho tinha criado para a minha editora, a Camus. Ela não conhecia o desenho, ou pelo não o tinha visto nas capas dos livros, mas desejava vê-lo, e eu desejava ainda mais mostrar a ela, que tinha orgulho do talento do filho. Assim, cada vez que passava em frente à sua casa tinha vontade de parar, bater, mostrar os livros, e então não fazia nada, esperava para encontrá-la de novo no supermercado. Amiga de minha mãe as duas tinham os filhos, que escolheram viver em Jaraguá do Sul, em comum. Uniam-se para enviar mantimentos, lembranças, carinhos de trigo, abraços de fubá, beijos de chocolate, para os filhos que estavam longe de casa. Só os filhos ficaram. Elas partiram…

E Olga era dessas pessoas que jamais teria um inimigo, ou uma inimizade, que dava vontade de ficar conversando por horas, que os olhos azuis traziam uma tranquilidade, uma bondade, uma paz que se quer ter, sempre. Seu nome é de origem russa, quer dizer santa, sublime, mulher repleta de virtudes como: digna, respeitável, bondosa, bela.

E é por isso que essas urgências de se estar com as pessoas as quais tanto se gosta me perturba demais, porque nunca ninguém sabe a hora que vai embora. E a velha história de que é preciso viver e amar as pessoas como se não houvesse amanhã – e de encontrá-las, dizer o quanto gostamos delas, e tentar ficar próximo – vem à tona quando uma morte está com pressa de acontecer. Porém, por algum motivo, quando os olhos fecham, de noite, e depois, quando o dia nasce, tudo isso fica só no pensamento, nem sempre cumprimos. Na próxima partida lembramos…

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas