A discreta distração [Daniel Russell Ribas]

Posted on 07/01/2019

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Soltei os panos, sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões, nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Caetano Veloso – Panis et circenses

 

Uma piada recorrente da trupe Monty Python é a incapacidade das pessoas em notar o absurdo ao redor. No filme “O sentido da vida”, há um esquete em que executivos se reúnem em uma sala da discutir o tópico. As conclusões apresentadas são: 1) as pessoas não usam chapéus o suficiente e 2) um argumento existencialista em que a inabilidade do ser humano em distinguir o importante do frívolo torna-o incapaz de atingir uma “alma”. Adivinha qual destes dois pontos é o que provoca debate em seguida? É uma cena tragicômica, pois consigo ainda somos fisgados por informações irrelevantes quando há um assunto urgente em pauta.

Olha, um pássaro!

O filósofo Noam Chomsky listou dez técnicas de manipulação de massa. Destaco a estratégia da distração. Trata-se de empurrar factoides goela abaixo do público enquanto são implementadas medidas graves. Mágica básica: mostre com uma mão, faça com a outra. Enquanto se vê um ato, um diferente ocorre na surdina, e o resultado surge como inesperado para a plateia. No entanto, o ilusionista sabe muito bem onde botou o coelho que saiu da cartola.

Gente, viu o meme do gatinho fofinho no Face? Ooohhhh…

O que aconteceu nas primeiras semanas de governo é uma comédia grotesca. Um aglomerado de erros e acertos que cumpre de modo eficaz a divisão para conquista de território na opinião pública. É um fenômeno recorrente na política brasileira. Entretanto, realizado de modo tão vulgar e óbvio que fico chocado entre a grosseira do método ou sua eficácia. É como assistir a uma apresentação desleixada e, mesmo assim, cair feito um pato ao número. Até entre aqueles que percebem o truque a divisão se prova real: uma mistura de “Como pode ser tão tosco?” com “Como é que o pessoal ainda se convence disso?” Ver para crer saiu de moda. Agora, temos que crer para ver.

Menina usa rosa, e menino veste azul.

A ministra cumpre, talvez sem saber, o papel de boi de piranha. Enquanto a manada atravessa (provavelmente para terra que pertencia a indígenas), ela aparece como um para-raios para uma mídia esfomeada. Aos poucos, todos compram o produto, sem notar que prazo de validade. Quando expira, surge uma novidade. Meninas e meninos podem usar a cor que quiserem. A lei  de mercado nua e crua: sentido da vida, demarcação de terras, desmantelamento de serviços públicos e da educação, mas, como assim, meninas só podem usar rosa? A ministra é uma nova versão e Eduardo Cunha, Severo Cavalcanti, (…) com um toque de Dolores Umbridge, minha vilã favorita de Harry Potter. Uma pessoa despreparada para o cargo, mas estrategicamente posta para manter controle de um autoridade maior sob a escola de magia Brasil.

Aliás, o que acharam do novo filme dos “Animais fantásticos… ?”

Enquanto isso, na sala de jantar, vemos sedados que o governo pretende perdoar a dívida da indústria de chapéus. De couro.

E, agora, para algo completamente diferente!…

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

 

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