Terapia de grupos [Rubem Penz]

Posted on 04/01/2019

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À Clara, minha filha amada

Minha vez? Bom, na verdade, o problema começou quando passei de 32 grupos. Até então, conseguia administrar bem a coisa, principalmente depois de silenciar a todos. Ah, claro, silenciar os grupos foi importantíssimo: antes, meu celular parecia balcão de hotel quando chega a excursão – plim, plim, plim, plim, plimplimplimplim… O que era um alívio, porém, virou outro drama: as trocentas mensagens por grupo ocultadas pelo providencial silêncio. Isso, vezes 32, dá uma pálida ideia de quantas horas rolando tela passei a gastar. Não, não: a queixa, até então, era apenas a perda de tempo – parei de ler livros, revistas, jornais, artigos, parei de ver TV. O que estão olhando? Nossa, parece que ver TV virou pecado, ou atestado de velhice. Posso gostar de ver TV, por favor? Tá, voltando aos grupos: sempre tem alguém de aniversário, já notaram? E aí vem a cobrança de mandar parabéns. Os tipinhos populares até nem é tão ruim de esquecer: nem eles mesmos conseguem acompanhar direito. Mas há quem fique magoado com um ou dois cumprimentos, aí bate uma culpa na gente e, tão triste, né? Ninguém nota, o que é pior… Também tem as formaturas dos filhos, vestibulares, aniversários de casamento, viagens, promoções, jantares. Gente morrendo, nunca sei o que dizer – e o medo de dar parabéns sem querer!? Vá lá, tudo isso, vezes 32, ainda rolava. Friso 32 porque foi quando se esgotaram as variáveis trabalho, grande família, família pequena, amigos atuais, antigas turmas, pessoal da praia, vizinhos de condomínio e aficionados por hobbies. Fim, era toda a minha vida em 32 escaninhos. Aí veio o trigésimo terceiro a abrir os portais do inferno: grupos de exclusão. Tipo, Família II (todos, menos a tia Maria Quitéria, que ninguém mais aguentava). Ele, que começou apenas para falarmos mal da tia Maria Quitéria, foi sobreposto e o pessoal começou a postar nos dois. Coisas novas e, às vezes, as mesmas coisas. No trabalho, nasceram grupos com e sem as lideranças; no pós, com e sem os professores; nos amigos novos, com e sem pornografia; nos antigos, com e sem pornografia pesada. Subgrupos a favor do PT, a favor o Bolsonaro, proibidos de falar em futebol, política e religião e… uns só para falar de futebol política e religião. Dissidência para colorados (e, suponho, de gremistas também). Clube do Bolinha (e, suponho, da Luluzinha também). Família III, que só descobri sem querer, olhando o celular do primo Tadeu, e fez eu descobrir nexo numas histórias pela metade no Família e Família II. Sim, eu era a tia Maria Quitéria deles! Por quê? Por quê? Porque meu limite de sanidade era 32, entenderam? A partir dali eu aloprei e comecei a apatifar geral! Rodei nas três cadeiras, perdi o emprego, fui deserdado, me separei, estou jurado de morte na praia… A alegria, o alívio, é que estou a 27 dias, três horas e, deixa ver, 12 minutos sem WhatsApp. Obrigado por me ouvirem e me apoiarem e compreenderem e tal e coisa assim né… Ó: a mão até treme menos, viram?

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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