Para lembrar das cobras crônicas [Rubem Penz]

Posted on 21/12/2018

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Dermophis donaldtrumpi, um anfíbio cego recém-descoberto,
que enterra a cabeça na areia, recebeu o nome de Donald Trump [Portal R7]

Pela bagatela de US$25 mil, um empresário venceu um leilão para nominar com deboche um anfíbio particularmente sensível aos abalos climáticos descoberto no Panamá. E essa história me lembrou o desafio que lancei aos cronistas da Master Class Santa Sede para comporem suas minibiografias no livro “Cobras na cabeça” (Buqui, 2015): assumir o nome e descrever-se uma cobra. Aqui, uma pequena seleção de nosso ofidiário:

Pseudoboa ferrelia (Gabriela Ferreira), conhecida como muçurana, é uma serpente que vive na América do Sul, muito identificada com a cultura rio-platense. O seu habitat natural são as matas e a vegetação rasteira e fechada, podendo ser vista frequentemente pelos lados da serra. É de pequeno porte, mas de grandes ideias, e vive elucubrando coisas diferentes para fazer. A muçurana não é um animal peçonhento, sendo inclusive conhecida como cobra-do-bem. Está sempre buscando resolver problemas, e para isso, trata de usar sua capacidade de relacionamento e coordenação para conectar recursos e habilidades das pessoas em prol de um propósito maior. É ofiófaga, ou seja, sua alimentação se baseia principalmente em outras cobras. Por isso, apesar de muito caseira e de gostar de ficar na sua toca, adora estar rodeada de amigos, pois é o convívio com outras cobras que alimenta a sua alma.  É uma serpente forte, que mata suas presas por constrição: intensidade é sua marca. Observadora, está começando a traduzir em crônicas sua forma de ver o mundo.

Naja lucianae (Luciana Farias). Espécie inexplicavelmente encontrada no Brasil. Considera deselegante morder sua vítima, pelo que prefere esguichar seu fatal veneno a distância, em doses certeiras. Business-cobra, serpente-mãe e esposa-ofídica, infla o peito e vai às alturas para defender os seus. Finge que dança conforme a música. Por prazer, utiliza-se de palavras peçonhentas e deleita-se em alfinetar a mediocridade. Agradam-lhe textos de cobras malditas desta e de outras épocas.

Hypsiglena bassi (Felipe Basso), conhecida por serpente noturna, tem a mania de desaparecer da vista de todos, reaparecendo de modo tão misterioso quanto sumiu. Choca sua produção entre páginas de Kafka, Dostoievski, Leminski (não à toa se tornou alguém consoante ao tilintar dos copos e ao torpor da fumaça). Destila veneno desde a primeira leitura de Luis Fernando Verissimo – quando decidiu se dedicar à palavra escrita. Jornalista da linhagem de Braga, amante da família de Maria e herdeiro de Vinícius para a boemia, é cobra criada na Nação Missioneira e se estica por todo o horizonte literário. Transforma vícios em salvação, salvação em arte e arte em convívio. Amigo dos amigos, é um ofídio de tão rara estirpe que ele mesmo, por vezes, acredita estar extinto.

Atractus Spinalis carvalhus (Giancarlo Carvalho) é uma cobra de tamanho pequeno e cor avermelhada, enfeitada de estrias escuras e olhos verdes, descoberta recentemente nas Minas Gerais. Depois de muito rastejar, escondida atrás de uma mesa de um banco qualquer, decidiu migrar para Porto Alegre, onde serpenteou por algumas atividades burocráticas até conseguir um lugar ao sol. Atrevida, conseguiu se infiltrar na literatura, lançando um romance mitológico sobre a capital gaúcha, até se esgueirar para a crônica. Hoje dona do próprio e inexistente nariz, raramente sai da toca. Mas, quando o faz, gosta de estar cercada de semelhantes ou diferentes espécies, e se diverte subvertendo os sibilados à sua volta. Mas não impõe o seu, pois não é agressiva, desde que não seja atacada com hipocrisias e peçonhas sem fundamento. Apesar de oriunda do cerrado, detesta a secura e está sempre se hidratando com uma cerveja gelada. Alimentos preferidos: criatividade, frutas e pequenos pedaços de pão. De queijo.

Crotalus penzi (Rubem Penz) é uma cascavel sul-americana que carrega enormes guizos – uma bateria inteira! – em sua cauda. Isso porque já trocou várias vezes de pele: já foi professor de educação física, redator publicitário, dono de uma metalúrgica especializada em antenas… Tem hábitos versáteis: é uma cobra vista com frequência durante o dia, mas, com igual articulação, frequenta a noite. Alimenta-se de sonhos, de projetos, de palavras; ritmos e melodias. Inocula seu veneno, que, estranhamente, ao invés de paralisar a vítima, põe ela a se mover. Depende muito do contato pessoal para sobreviver e, em tempos virtuais, reza para não estar em extinção. Cascavelzinha facilmente encontrada em bares, é atraída por boa cerveja, papo animado e amizade sincera. Inofensiva. SQN.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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