Na noite do Brasil [Cícero Belmar]

Posted on 03/12/2018

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Somente quando os últimos médicos cubanos partiram, num rabo de foguete, é que foi possível reconfirmar: o Brasil acredita muito mais em contadores de histórias e no estilo de suas narrativas do que na versão dos fatos reais.

Os cubanos foram vítimas das fake news antes do modismo das falsas versões dos fatos ocorridos. No exercício de deputado federal, o presidente da República eleito para os próximos quatro anos usou o microfone do plenário da Câmara para criticar o Mais Médicos. Posicionou-se contra o direito de os profissionais de saúde, que vinham de Cuba, trazerem seus familiares (mulheres, maridos e filhos); e agitou a hipótese de eles serem “agentes” do comunismo.

Mais de uma vez argumentou que os médicos deveriam ser expulsos do Brasil; e este ano, na campanha presidencial, justificou-se: “Ninguém pode comprovar que eles realmente são médicos”. Disse mais, completando o que disse antes: se eleito, “daria uma canetada”, mandando-os embora.

Os cubanos entenderam que precisavam dar o fora antes de a panela de pressão começar a ferver. Quando deixaram o solo brasileiro, o capitão reformado do Exército afirmou que foi uma decisão unilateral.

O governo de Cuba rompeu o convênio de exportar médicos para o Brasil porque o programa que serve de modelo para o mundo todo já tinha sido achincalhado demais. Médicos são a revolução made in Cuba. Ficar ou não seria apenas uma questão de tempo. Já que cada um define seus rumos, os cubanos seguiram.

No rastro da fumaça, ficou no ar a pergunta: agora, quais são os nossos rumos? Naquele fim de tarde, o avião partiu no sentido Norte e nós todos é que ficamos, na sacada do aeroporto, acenando ao longe. Somos os que ficaram. Perdemos esse e todos os outros aviões da história.

Somente quando foram embora é que vimos as fotos do Brasil profundo: os rincões mais inóspitos onde eles trabalhavam; os casebres das favelas mais miseráveis onde entravam para oferecer alívio; as aldeias mais distantes onde indígenas morriam à míngua. Ficamos sabendo que atravessavam longas jornadas a barco; ou andavam léguas de veredas a pé, debaixo de um sol escaldante. Ou da chuva torrencial, conforme fosse.

As imagens valem mais que mil palavras, aforismo incontestável. Eles deixaram lições da medicina exercida com honestidade, cordialidade, sem visar o dinheiro ou o status social, feita pelo desejo de ajudar o próximo e com compaixão pelos doentes.

No exato momento da decolagem, vimos o pôr do sol sendo engolido pelo escuro da noite. A tarde caía feito um viaduto. Somos os bêbados e as equilibristas ditos na letra da música que o artista compôs.

Na noite do Brasil, é preciso recomeçar de onde os estrangeiros pararam. Voltemos a cantar. Eu sei que numa dor assim pungente, a esperança não há de ser inútil.

Um batalhão de profissionais brasileiros se prepara para ocupar o Mais Médico vazio. Yes, nós temos médicos. Mas, perguntar não ofende: aprendemos o quê, com os cubanos? Pelo menos a formular novas alternativas nas políticas de saúde?

Chora a nossa pátria mãe gentil, choram Marias e Clarices.

Vamos esperar que os novos vistam o jaleco com a intenção de mudar o modo de agir na atenção às famílias nas comunidades carentes distantes. Que, mesmo sendo provenientes de uma classe média burguesa, os médicos que vão ocupar as vagas deixadas, saibam renovar o pensamento crítico diante das necessidades que vão deparar.

Que estejam preparados para praticar uma medicina que pressuponha a incorporação do social no processo saúde-doença; que sempre adotem rigor científico, conceitual e metodológico para cuidar dos mais pobres.

O avião sumiu no horizonte. E nuvens, lá no mata-borrão do céu, chupavam manchas torturadas. Que sufoco.

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras. 

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