As crônicas que não foram escritas [Mariana Ianelli]

Posted on 01/12/2018

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Digamos que seja inevitável, pela surpresa de te encontrar aqui, ir emendando um assunto noutro, sem um propósito aparente, de cá para lá, em associações livres, numa espécie de carta falada, improvisada com motes de crônicas que não chegaram a ser escritas, aproveitando o raro e preclaro da tua visita, meu tempo e o teu neste sábado, vou te contar por que agora tanto me interessam os livros pouco lidos, esses que não causam sensação nem saem em fotografia, porque são como lugares remotos aonde ainda não chegou o empreendedorismo, e como é que vou te explicar?, também às vezes abandonamos livros e caminhos ditos importantes, a certa altura o desvelo com as palavras importa tanto quanto o desvelo que temos um com o outro, e a certa altura só o que importa é no que a palavra se desdobra, no que malogra, no que germina, e porque tudo cheira a política, e tudo urge, e toma a crista da época a forma monstruosa de um grito, digamos que seja quase impossível pensar que a palavra certa e a prontidão do gesto também dependem de pregressas demoras, mas afinal também em tudo existe ritmo, em tudo existe música, e a música que eu queria te fazer ouvir agora é uma canção de Leandro Vaz, uma canção que ouvi numa manhã de sábado em Pernambuco, que dizia que hoje cedo acordou a flor da revolução: queria te fazer ouvir esse estribilho, nesse nosso tempo de toadas políticas, queria te fazer lembrar que a flor da revolução é uma criança.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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