Entardeço [Madô Martins]

Posted on 30/11/2018

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Lentamente, começa a sair de mim o mal que me acomete toda primavera, até hoje não identificado. Parece uma forte alergia, lembra os sintomas da dengue, demora a ceder e a me devolver a disposição. Como me nego a ficar acamada, passo a maior parte do dia no sofá, num sono estranho, pesado, que não traz descanso. Assisto, desde a janela, a pores de sol magníficos, escuto as cigarras que este ano chegaram atrasadas, e minha alma quer sair, ir caminhar a beira-mar, conferir as cores do ocaso, mas o corpo não aguenta o menor esforço.

Abro mão de inúmeros compromissos, e até mesmo ler exige a energia que perdi. Assim como teclar no celular ou preparar refeições. Se a despensa fica vazia, arrasto-me ao supermercado, e esta é minha grande e única aventura, além de obrigações inadiáveis, como pagar as contas. É quando me agasalho mais do que o necessário, temendo o ar condicionado dos ônibus ou da agência bancária. A aparência doentia que agora exibo faz com que me cedam lugar no coletivo, trazendo à lembrança os versos de Cecília Meireles: “eu não tinha esse rosto de hoje…”.

A tendência é pensar na solidão e na idade. Sete décadas, insiste a voz interior, mais mórbida que nunca. E constato que um dos aspectos mais cruéis de envelhecer é acovardar-se. O mal desta primavera é resultado de um punhado de desafios que me propus enfrentar e parecia ter superado: palestras e aulas em cidades vizinhas, convívio com plateias desconhecidas, a costumeira incógnita do lançamento de um novo livro. Toda a tensão desses momentos agora me atinge como um medo tardio, em forma de estafa.

Irônico, é que todos foram acontecimentos agradáveis, que resultaram em muitas demonstrações de afeto, motivação para novos voos, certeza de estar no caminho certo. A essência idealista ainda pulsa em mim, mas o corpo se ressente de tantas emoções, pedindo tréguas cada vez mais longas. Em nome da inusitada fragilidade, tiro do caminho todos os obstáculos que posso, eliminando pequenos aborrecimentos. Bloqueio amizades vampiras, dou fim a relacionamentos chicletes, agendo com mais critério o que devo fazer, respeitando os novos limites.

Semana que vem, vou ao médico. Espero saber descrever todos os sintomas, para facilitar o diagnóstico, mas se o doutor não notar que sou poeta, como reagirá aos versos de Cecília? “Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: em que espelho ficou perdida a minha face?”…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas