Genuflexório* [Rubem Penz]

Posted on 23/11/2018

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Foram longos anos de missas diárias desde a tenra infância. Primeiro, acompanhando a avó. A lamentar que ela, Deus tenha piedade, não viveu muito tempo neste vale de lágrimas. Depois, de braços dados com a mãe – longeva, com a graça de Deus e com as bênçãos da pensão do pai militar. Começou com algum prazer, evoluiu para a tolerância, mas, alcançada a idade adulta, tornou-se um trauma. De tal sorte que, ao ouvir “rezemos”, ato reflexo, ficava de joelhos. O que viria a lhe causar alguns embaraços.

Como na vez em que, defendendo a meta do seu time diante do derradeiro pênalti a decidir o campeonato, escutou o repórter setorista falar ao microfone da rádio: rezemos! E a bola mal chutada, no meio e fraca, fácil, cruzou pateticamente sobre um goleiro ajoelhado em ato reflexo. Teve que correr muito para não ser linchado.

Outra situação foi ainda pior. Visitavam a trabalho uma fazenda criadora de carneiros e um jovem macho pulou o cercado, aproximando-se do grupo. Olhou fixamente para os estranhos, assim, de forma ameaçadora. Uma senhora mais devota ficou muito receosa e suspirou: rezemos. Ato reflexo, ajoelhou, algo que foi considerado pelo carneiro como nítida provocação. Ao menos é isso o que foi comentado no pronto-socorro.

Porém, de todas as maçadas impostas por seu ato reflexo, a mais trágica aconteceu diante da porta do próprio banheiro, em sua própria casa. Chegava das compras e saíra da garagem encarregado de descer as sacolas. A mulher, do andar de cima, chamou-o para reclamar do que parecia ser a empregada tomando banho na Jacuzzi. Ele subiu. Ambos escutavam o barulho da água. Então, ele disse que podia ser engano, e jamais acusaria sem ver. Ela: rezemos.

A primeira pessoa que o visitou na UTI foi um advogado, para tratar do divórcio.

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*Crônica escrita no âmbito da oficina Mosaico Santa Sede

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

 

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