A aranha e a mosca [Rubem Penz]

Posted on 09/11/2018

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Foi ontem. Estava eu no lavabo da casa da minha mãe. Já havíamos almoçado e compromissos me aguardavam para logo em seguida. Tempo contadinho, ainda mais que precisava passar antes no banco. Sim, é cada vez mais raro, consultores de segurança afirmam que se deve evitar a todo custo, mas ainda precisamos passar em bancos vez por outra. Nem que seja para as pessoas de lá sentirem-se minimamente prestigiadas. Porém…

Bem na altura dos meus olhos, no vidro canelado da janelinha do banheiro, a natureza ofertava uma cena hipnótica. Nela, uma pequena mosca batia cabeça imaginando poder seguir em frente na direção daquela promissora luz, em cuja transparência do vidro vinha a iluminar o ambiente de cálida esperança. E, no escanteio inferior esquerdo da mesma basculante fechada, uma pequena aranha papa-moscas acompanhava tudo com flagrante interesse. Então…

Cada vez que a mosca se aproximava, a aranha ajustava o corpo para dar o bote. Quando eu era criança, chamávamos esse bichinho de “que-te-pula”, devido ao método de caçada. Ou, no caso, ao modo como fugia de nossos dedos curiosos – aracnofobia não rolava com as papa-moscas. Incrivelmente a mosca não se dava conta do perigo rondando sua patetice. Havia mais dois vidros com a mesma luz acima, e outra basculante na parede oposta. Mas, não: ela permanecia ali, voando e batendo a cabeça. Quando parava, esfregava as patas traseiras bem como costumam fazer as moscas. E a aranha só olhando. Até que…

Eu não podia mais acompanhar o grandioso espetáculo da sobrevivência. Bom alemão chega aos compromissos sempre primeiro – prefere aguardar a ser esperado. O máximo que restava era ficar imaginando o final da contenda. E lembrar dos meus amigos bichos-grilos a jurarem ser a natureza um lugar zen. Cara! A natureza é punk, é Stravinsky. Quem menos corre, voa e, aos que não voam, resta o salto. Pensei em como seria a nossa vida se a aranha papa-moscas fosse gigante, chamando-se de papa-homens. Isso sim seria um baita problema. Mais assustador do que grandes felinos, matilha de lobos, ursos, cobras, tubarão. Daí…

Pensei em relativizar umas coisas dos últimos dias, algo melhor do que aplicar a cena em metáforas paranoides. Apesar de, assim, frustrar a expectativa de muitos leitores que neste momento estão batendo cabeça em busca de luz.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas