De pequeno a gente não esquece [Marco Antonio Martire]

Posted on 07/11/2018

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Sabem por aí que sou um cara pequeno pra caramba. Não sirvo para muito mais que fazer amor e escrever umas crônicas. Mas posso dizer que sou um cara alto, passei com medo debaixo de uns cometas — o Halley, por exemplo. Confesso que, nesse medir, até minha balança me considera pequeno, pequeno para o meu sobrepeso. Que confere com as minhas selfies, acrescento na defesa.

Mas falemos da grandeza alheia. Lembro feliz do poeta Manoel de Barros, que também curtia de monte explorar a dimensão do mundo. Vivia olhando para o chão o poeta Manoel. Ao menos, é o que se percebe lendo o que escrevia, uns poemas que não se classificam, como é que o poeta foi ver isso? Mas se gostava de olhar pro chão, iria ver outras coisas?

Outro poeta que tratou do assunto foi o português Fernando Pessoa. Todos conhecem estes dois versos eternos:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Portanto, à nossa querida alminha, segundo ele, valeria ser grande. O que o Manoel de Barros saberia sobre esses versos do Pessoa? Ricardo Reis também quis o tema para si quando versou:

Para ser grande, sê inteiro

Ainda meteu essa ideia de inteiro na poesia, o que qualquer um sabe, do primário à pós: é questão polêmica.

Como era genial o Pessoa. Tamanho da alma… mas se a alma larga de ser pequena…

Os lençóis prosseguem amarfanhados.

Sobre esse verbo amarfanhar, devo no mínimo ostentar meia razão. Procurei o tamanho do verbete: linhas de verbete enciclopédico a palavra amarfanhar, o que é um sinal de evidente grandeza.

Tenho uma amiga poeta que inventa curiosíssimos palíndromos. Palíndromo, se querem saber, é uma palavra que pode ser lida da mesma forma de trás pra frente. É preciso muita criatividade e persistência para inventar palíndromos. Dúvida que me cabeceia: e palíndromos valem mais, ou menos, de acordo com o tamanho?

Eu curto escrever aforismos. Eis aí uma palavra média, que ficaria melhor grafada no feminino. Mas “aforisma” inexiste, existe aforismático, palavra mais extensa, cujo significado, mesmo ao dicionário, não consegui compreender.

Mas compreender é luxo, nesse tranco das fake news.

Quisera eu me dar ao luxo.

Cobertor tá curto.

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Marco Antonio Martire é carioca, graduado em Comunicação pela UFRJ e pós-graduado em Língua Portuguesa pela UCAM. Foi premiado pelos contos de “Capoeira angola mandou chamar” (publicados em 2000 pela Fundação de Cultura Cidade do Recife), lançou a novela “Cara preta no mato” em formato ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. É membro do coletivo Clube da Leitura. Escreve para a RUBEM (www.rubem.wordpress.com) quinzenalmente às quartas-feiras. “O gato na árvore” é seu primeiro livro de crônicas.

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