Um tantinho de autocrítica [Raul Drewnick]

Posted on 04/11/2018

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Que os deuses lhe concedam vida longa, se você pretende esperar pela inspiração.

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Gostaria de ser conhecido como estraçalhador de corações, ainda que não merecesse a fama.

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Há décadas ele não faz outra coisa além de escrever. Quando o aconselham a viver um pouco, ele diz estar ocupado em ser mártir. Mártires são seus leitores…

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Duas borboletas não sabem se continuam voando ou se param um pouco para fazer um haicai.

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Como piorou a situação. Ontem se assaltavam palácios. Hoje, até fundos de pensão.

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Quando os participantes do velório estavam começando a se acostumar com o defunto, e até a achá-lo agradável, chegou a hora de enterrá-lo.

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Não, pelo que sei,  Oscar Wilde não era pseudônimo da Dorian Gray.

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Um dia, não tendo no que pensar, resolveu tornar-se filósofo.

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Fazer haicais com o quê? Estrelas não caem mais em lagos, pulam direto nas caçambas.

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Se Fernando Pessoa não tivesse existido, alguém precisaria inventá-lo. Mas quem (perdão, Quem) se atreveria?

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Um dia atinjo minha meta. Ontem eu era menos que um, agora já sou meio poeta.

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Nas guerras contra o amor, eu sempre quis ser capitão e negociar minha rendição.

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A única coisa autêntica que eu sempre tive foi a tristeza. Nunca a reconheceram.

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Por uma razão imprecisa foi proibido o show dos três tenores em Pisa.

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A poesia nem sempre é um dom: às vezes é um encargo, outras vezes uma danação.

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Na minha melhor fase cheguei a ser poeta – ou quase.

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Não sou poeta, já disse. Tentei muito, não nego, mas nunca passei de vice.

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Antes que eu desista e morra, que Alguém me salve ou socorra. Pode ser qualquer um: Deus, o bom Júpiter ou Zeus.

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Que esplêndido poeta eu teria sido, se antes de amadurecer não tivesse apodrecido.

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Quando estivermos mortos, seja nosso mérito ou não, teremos nisso igualado César sem atravessar o Rubicão.

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Não merece mais que risos a cantoria dos pardais: nunca mais, nunca mais.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas