Tristeza estranha [Mariana Ianelli]

Posted on 03/11/2018

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O tempo não é de temperança, você sabe. Pode vir São Mateus em pessoa dizer que basta a cada dia o seu mal, que, para nós, os males agora se atropelam, eles mesmos descumprindo o quinhão de cada dia. É triste ouvir pela janela o eco do hino nacional. Triste de verdade, tristíssimo. Que mãe gentil é essa? Abertamente achincalhada, estuprada, usufruída. Sua gentileza por acaso tem cara de omissão? Pensamos no amor, mas o amor é difícil. Tomamos como certo o bom senso e o bom senso era minoria. Nos estranhamos, nos envergonhamos, questionamos as nossas famílias. “Nossos bosques têm mais vida”? Vamos ver então que vida a mais é essa das florestas que abafam o som dos clubes de tiro. Essas florestas que daqui não podem fugir, que amargam todo dia uma chuva horizontal de balas e estampidos, esses nossos bosques espantados, instruindo no silêncio do terror os seus bichos. Com tantos desastres tão maiores no país, ainda há quem sofra por causa de umas árvores alvejadas, veja você. Nem é pensar em bicho morto, só no pavor do bicho. Imaginar o que guardam essas árvores, o que comunicam entre si, o que emanam no seu modo vegetal de sofrer. Que tipo de vida vai se fazendo aí, ao longo dos anos? Se você me pergunta o que é que há, neste sábado de dores cansadas, acho que é isso, meu amigo. Só uma tortura básica, você sabe, um nó no peito, essa tristeza estranha de floresta em clube de tiro.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas