De pecados e outras quinquilharias [Raul Drewnick]

Posted on 21/10/2018

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Quando se lembra dos seus pecados, principalmente dos carnais, se de algo se arrepende é de não tê-los cometido melhor e mais.

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Concisão é o nome que arranjei para a minha preguiça.

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Por que um chato sempre nos faz pensar na lei do talião?

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Ah, fale-me de luxúria, sim, por que não? Talvez eu ainda me lembre de alguma coisa.

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A literatura já foi melhor álibi, no tempo em que se sabia o que era álibi e o que era literatura.

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Ideias são importantes, mas o poeta não deve esquecer que é com as palavras que ele há de firmar seu pacto.

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Fernando Pessoa tinha pelo menos cem modos de se mostrar um.

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Alheio aos riscos de catástrofe nuclear, o gramático segue estudando quando se deve e quando não se deve virgular.

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Não tenho importância nenhuma. Nem escritor eu sou. Sou só alguém que faz frases, quando as faço.

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Tenho dez ou vinte sonetos no prontuário, mas nenhum muito grave. Só pecadilhos da juventude.

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Os milagres em poesia são discretos. Não se deixam ver, são só uma inquietação no ar, um rumor, uma insinuação de haicai.

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Louro sabido só dá o pé a quem não lhe nega café.

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Ainda que fosse só para cumprir uma convenção literária, as mulheres fatais deveriam ser sempre ruivas.

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O que melhor rega a flor da pele é o suor amoroso.

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Bem-aventurado aquele cuja idade o exime de se penitenciar dos pecados porque a memória não os registra mais.

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Que também no céu vigore a norma: in dubio pro reo.

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Se não fosse tão prazeroso, falar de gatos deveria tornar-se obrigatório por lei federal.

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Você não tem o direito de dizer aos jovens que a literatura é uma ilusão; você tem a obrigação.

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Os românticos faziam tudo muito cedo: viver, poetar, morrer.

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Por que ainda escrevemos? Não termos nada a dizer é tudo que temos.

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O amor não nos deixa dúvida: temos alma. Ele a revela inteira para nós quando vem e quando se vai.

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Sejamos perfeccionistas, por que não? Até nos nossos pecados. Que eles provoquem a ira de Deus a os aplausos do Diabo.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas