Helena não morreu. Agora, Ignez é morta [Rubem Penz]

Posted on 12/10/2018

4



Ninguém está livre da morte, nem de matar alguém por engano. Não, não matar matado, de tiro, facada ou tombo. Motosserra, atropelamento, esganado. Refiro-me àquela falha de pensar que morreu e levar a notícia adiante. Uma mãe, por exemplo. Acabei de fazer essa confusão. Escrevo ainda sob o impacto da mancada. Explico-me adiante:

Duas meninas com o mesmo nome entraram no colégio em 1978. Uma foi para a turma 81 (a minha), outra para a 89, no extremo oposto do corredor – ninguém me convence de que não foi por caso pensado. Mas não eram, Cristinas, Denises, Márcias, comuns na nossa geração. Aliás, se fossem, eu nem registraria na memória o acontecido. Eram duas… peraí. Pouparei ambas da exposição, pois nomes raros devem ser preservados. Para os bons em matemática, fica fácil ver que isso faz 40 anos. Ontem, sob certo prisma.

E, no obituário do jornal de hoje, um sobrenome me chamou a atenção – confirmado pelo exótico nome da filha. Corri para o grupo de ex-colegas de WhatsApp para avisar e lamentar. Acontece que só há uma delas no grupo, cuja mãezinha passa bem, obrigado. E confundi os nomes. Feito o desastre – matei a progenitora errada. Morri de vergonha em seguida. Fui acusado de criar uma Fake News inadvertidamente. Roguei por clemência – a coisa estourou no meu colo: bomba-relógio armada faz quatro décadas. Mães do Céu.

Não é minha primeira morte por engano. Também já divorciei casais, confundi filhos, troquei irmão por irmão (até hoje chamo pelo sobrenome os ex-colegas gêmeos José Antônio e Geraldo para não dar bola fora). Acontece até nas melhores intenções. O difícil é lidar com o constrangimento. Uma maneira nova, ao menos para mim, é escrever uma retratação pública, uma confissão de incompetência, um pedido de desculpas. Foi mal.

Nat… (quase saiu), perdoem-me. Muitos anos de vida para dona Helena. Para o conforto da outra família, a certeza de a dona Ignez estar com Deus. Morri um pouco pela vergonha. Vivo para me aprender.

__________

Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas