Poetas e mais uma porção de coisas [Raul Drewnick]

Posted on 07/10/2018

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Os que depois cometerão os maiores crimes contra a literatura costumam começar com uma inofensiva quadrinha.

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Não conseguirmos mais escrever talvez seja um sinal de que os deuses se cansaram de se divertir conosco.

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Frustração das frustrações: deram-lhe a bengala sem o manual de instruções.

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O amor é aquela lagartixa agonizante que finge morrer aqui para ressuscitar ali adiante.

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Escândalo na gramática: reformaram a acentuação sem abrir licitação.

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Quando você estiver comigo, pense em alguém assim como Tom Cruise ou George Clooney. Talvez minha poesia lhe soe melhor.

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Sei sorrir, mas não é o que faço de melhor. Sinto-me mais à vontade com a tristeza.

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Assim como a poesia, a tristeza é uma conquista do talento e da persistência.

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O melhor que um sofá costuma ter não se encontra na loja: o gato.

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É aos domingos, ao cair da tarde, sozinho, que você pode avaliar se sua tristeza foi regada com as lágrimas certas.

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Os filósofos podem não resolver problemas, mas são generosos. Mesmo que não os leiamos com atenção, acabam compartilhando suas dúvidas conosco.

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Certos poetas são tão ardilosos que algumas de suas vítimas só descobrem o que está acontecendo no momento fatal em que eles sacam o papel do bolso e anunciam: é um soneto.

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Um poeta só precisa de uma coisa: ser amado – de preferência mal.

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Querer ser poeta é uma tola mania. Onze de cada dez pessoas vivem muito bem sem poesia.

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O poema concreto mais simples e completo é o paralelepípedo.

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É um homem modesto e atualizado. Quando lhe dizem que é brilhante, comenta que já foi mais.

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Há muito tempo estou a serviço da poesia. Sou um mau funcionário.

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Às vezes gostaria de ter uma tristeza menos sofisticada, que não exigisse Chopin e se contentasse com Benito di Paula.

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O lirismo no qual quase me afoguei, como Alice em suas próprias lágrimas, hoje não daria para aliviar a sede de um periquitinho de realejo.

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Nem aqueles versinhos tão agradavelmente consumidos na hora do chá os poetas conseguem fazer mais.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas