Caminhos de Santiago, um dia, quem sabe… [Rubem Penz]

Posted on 28/09/2018

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Meu corpo começou dizendo qual é, meu! (…)
Não consegui dormir por três noites. Dor em tudo. Tive até febre. (…)
Não tem o que fazer, a não ser aprender a caminhar. E seguir.
André Hofmeister via WhatsApp

Já são uns três, quatro amigos próximos a somarem-se na pequena multidão de peregrinos cruzando os caminhos de Santiago de Compostela. Amigos nem tão próximos poderiam fazer crescer fácil este número. Organizados, metódicos, confiantes. Tomados de ânimo e respirando lembranças. E, a cada relato, uma semente é posta em meu coração. Um dia, quem sabe…

No livro “Caio em mim”, página 31, Ronaldo Lucena dedica uma crônica ao Caminho. E nos convida com suas palavras. “O Rio Arga virou meu rio. Quando lavou dos meus pés o cansaço, deu tenência às minhas veias e conectou-me às águas de outros rios e atravessou os mares e lambeu praias e entrou em lagoas e aportou alegre. E o cheiro de terra molhada abriu vertentes em mim.” Um dia, quem sabe…

Nem a recente notícia da morte de um peregrino porto-alegrense abala a confiança dos que vão, ou a certeza daqueles que regressam e planejam voltar. Sim, era um homem já maduro e em seu terceiro caminhar. A onda de calor na Europa pode ter sido a causa ou, no mínimo, o agravante. Mas a serenidade foi tamanha que ele deixou sua mochila no caminho para seu corpo ser encontrado. Seu dia? Um dia, quem sabe…

Acompanho em notícias esporádicas a saga do André, agora. Sinto nas palavras a dor, noto nos relatos a persistência, intuo na firmeza de suas convicções a promessa a se cumprir: um encontro profundo e intenso com o íntimo, com o Humano e com o Divino – ambos maiúsculos aos que compreendem Deus em todos nós, em todo lugar. Caminhar 25, 30 km por dia. Parar em albergues humildes. Conhecer gente do mundo inteiro por instantes e, por instantes, tecer eternidades. Muito sedutor. Um dia, quem sabe…

Enquanto não brotarem convicções, seguirei amparado pelos relatos de transformação. Convém evitar experiências assim envolventes (e doídas, exasperantes, exaustivas) enquanto não há certeza. Tornar-se um peregrino é algo que começa antes, muito antes do primeiro passo. Inicia para dentro, em busca da força necessária. Indispensável durante. Depois, reveladora. Se encontrar no olhar do André a mesma profundidade que notei no Ronaldo e na Tatiana (para citar eles apenas), muito vigor tende a se mover. Eles sabem.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas