Cinema de criança [Mariana Ianelli]

Posted on 22/09/2018

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Podemos entrar e sair do escuro, e não nos molhamos. A lua minguando no céu parece uma banana. A corrente do balanço canta como a janela da vizinha canta como a roda do carrinho canta num faz-de-conta de passarinho. Um buraco no tomate aberto com o dedo dá numa casa de minhoca. Com água e sabão temos duas luvas de espuma da cor do leite, da cor do açúcar. Morcego é bicho amigo, galinha d’angola também. Contornando a praça aqui do nosso bairro, você abraça uma árvore cortada, e a árvore começa a reviver. O vento é bom. Kiwi é bom. Acarinhar o mármore polido é muito bom também. E sair a pé até o parque, voar na água, nadar no ar, ou ficar na janela uma hora inteira só para ver as abelhas na flor do manjericão. E mexer com as tintas, fazer o verde, fazer o roxo, pintar a noite, as nuvens. Basta tocar para saber: cada cor tem um som. E, quando é noite, na nossa tenda transparente, histórias acontecem, desenhos que vão crescendo num cinema de criança. Orie é uma menininha que vai até a cidade com os pais num barco a remo e o remo do barco é de bambu. Lina tem um balão amarelo que brinca com ela como se fosse um irmão. Mouschi era o nome do gato de Anne Frank. Sem lua, parece que o sono vem mais cedo e o bairro inteiro dorme. Tem gente que finge que dorme e fica atento. Às três horas da manhã começam a cantar os sabiás.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas