O ipê amarelo [Madô Martins]

Posted on 21/09/2018

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Talvez gema baixinho, ao deixar cair flores quando a barraca da feira achata sua copa, por algumas horas. Mas, no restante da semana, ele encanta o olhar de quem passa, com sua timidez graciosa. Alguém plantou, não sei quando, uma árvore de cada lado do portão do prédio, mas só esta vingou. De arbusto, tornou-se um espécime de tronco ainda magro, que se destaca na calçada.

Este ano, floresceu pela primeira vez, de uma hora para outra, como costumam os ipês. E, sempre que venta forte, penso nele e seus frágeis adornos. Vem resistindo, apesar dos vendavais frequentes, da oscilação da temperatura, da poluição e dos vândalos, que frequentam a rua e parecem gostar de arrancar galhos, destruir cercados de proteção, desenterrar brotos.

Suas flores são amarelas. Vive quase em frente a outro já maduro, que há mais de uma década vejo exibir generosas floradas de um rosa quase branco. As duas gerações parecem conversar por cima dos carros que passam velozes e recebem a visita de beija-flores, entre outros pássaros e insetos.

Desde os anos 60, o ipê foi declarado árvore-símbolo do País. Deve ser por isso que, em uma loja de souvenirs de Brasília, encontrei uma camiseta com sua estampa, a mesma que consta em selos postais.

Ao florir, prenuncia a chegada da Primavera, que começa amanhã. Rubem Braga escreveu sobre uma borboleta amarela que enfeitou seu dia. Por aqui, a beleza brota dos ipês, especialmente de um adolescente amarelo que encontro diariamente. Trouxe do Google uns versos só para ele:

Ipê amarelo – Thiago Soeiro

Aprendi contigo
a geografia dos verões
das saudades que se instalam na gente 
em pleno setembro
em ti os amores já 
nascem maduros 
e se espalham 
pelos chãos desta cidade
como em um mapa
secreto de folhas amarelas
sempre amanhecendo
tudo que toca
uma árvore
um sonho 
este poema.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 14 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas