Arrebatamento [Tiago Maria]

Posted on 20/09/2018

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Algemado. Apavorado. Estatelado de bruços no asfalto. Despido. Pés atados, mãos na cabeça. Um ferimento na asa esquerda. Os cabelos cacheados, loirinhos, encharcados de suor. Um pelotão isola o local e imobiliza o suspeito sob os protestos de alguns passantes: é só uma criança! Covardes, prevalecidos! Motoristas, incrédulos, diminuem a velocidade para melhor ver o ocorrido. Forma-se um pequeno congestionamento. Todos chocados com o episódio que vou descrever aqui.

São cinco militares averiguando diretamente a cena. Um deles aponta a metralhadora para a cabeça do elemento. Daqui, parece mesmo uma criança. Pelo menos tem o físico de uma criança. As mãozinhas, a bundinha exposta, as bochechas rosadas de aflição e constrangimento. Não chora. Nem tenta argumentar com o pessoal de farda. Vez que outra, olha para o céu e faz uma prece em uma língua que não é a dos homens.

Muito precavidos com seus casacões verdes até os tornozelos, seus capacetes, coldres, munição na cintura, coletes e coturnos. Caminham de um lado para o outro, fazem ligações, consultam computadores e aguardam as ordens superiores. Com extrema minúcia, um dos soldados analisa o objeto encontrado de posse do suspeito: “Lembra um armamento medieval”. Outro, usando luvas, recolhe as setas, de pontas afiadíssimas, espalhadas pelo canteiro.

Escoltados por batedores da PE, o caso foi conduzido até a base militar. Apenas oficiais generais e oficiais superiores puderam ver o elemento através de uma parede de vidro. Os objetos encontrados foram trazidos até o grupo e dispostos sobre a mesa de reuniões para apreciação. Depois de um longo período de observações e silêncios, o Marechal, sujeito sisudo, corpulento, metido atrás de um bigode espesso, ao manusear as setas, fere o dedo na ponta de uma delas. No mesmo instante, encantado, vira-se para o Major, agarra-o com força pelos ombros e beija-o na boca, demorada e apaixonadamente.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 37 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas