Se um cronista numa noite de terça-feira… * [Rubem Penz]

Posted on 14/09/2018

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Suponha que Caio F. chegue à mesa numa terça-feira de 2018. Não se espante: suponha, apenas, que você não esteja só – ao contrário, tenha muita gente em sua companhia. Por fim, suponha que ninguém, você primeiro, estranhe essa chegada aparentemente tão pouco possível para uma noite de terça-feira num bar da Cidade Baixa em Porto Alegre em que chove uma chuva fina ali na rua na qual um mendigo sagitariano se esqueça de si e nem cogite lembrar-se de nós.

Desta forma, assim como se fosse a coisa mais natural do mundo, chame o garçom e faça uma enquete sobre o que oferecer ao recém-chegado. O Felipe, creio, indicará um uísque. Ronaldo, um chope artesanal. Eu, o André e o Gian convidaremos a nos acompanhar na cerveja, ao que o Edgar pulará na frente: pago uma Coruja! Bebendo pelas beiradas, a Ana Luiza e a Patrícia sussurrarão um vinho ao seu ouvido, enquanto Camila dirá ser água a melhor pedida. Gabriel, que tem nome de anjo, um café, quem sabe um chá… Refrigerante parecerá a todos fora de questão – Caio F. não teria vindo de tão distante no tempo para beber água doce.

Não pergunte nada. Deixe que as três Marias – Isabel, Mercedes e Amélia – suponham que Caio F. trouxe um conto inédito para ler só para elas; ou a Michele chame a Clarice num canto a combinar como farão para levá-lo adiante, sequestrá-lo para dentro da noite – plano que vazará e ninguém imagine estar de fora. Pense em estar ali, calado diante de faces tão encantadas com a chegada do visitante, que sequer suponham pousarem para um desenho do Kauer… Agora, levante o olhar lentamente por cima de todos e veja o Apolinário impassível ao quão profundo e encantador possa ser tudo isso.

Calma, feche os olhos: estamos chegando ao ponto de inflexão. Ao momento de pedir algo ao visitante, fazê-lo justificar sua chegada. Peça, assim, que ele inspire quinze escritores a resgatar de dentro de si uma humanidade intensa e bela, ainda que às vezes sofrida. E que a dor passe neste papel. Peça que não tenha pudores em dissuadir os cronistas da tentação de se pouparem, pois o instante é de efusão. Peça humor – nenhuma vida, muito menos uma vida que se expõe na mesa do botequim, deve perder a graça. Agora abra os olhos e veja que você não está num bar, nem nós, nem ele, mas, creia, estivemos. Ainda assim, todos, Caio F. inclusive – principalmente –, estamos diante dos seus olhos neste livro. Ninguém a salvo, ninguém anjo. Naja, ninguém.

É o momento de começar a leitura.

*Crônica que abre o livro “Caio em mim” (Buqui, 2018), escrito e recém lançado pelo grupo de cronistas da Master Class Santa Sede em homenagem aos 70 anos de nascimento de Caio Fernando Abreu.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

 

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