Esparramando coisas [Raul Drewnick]

Posted on 09/09/2018

5



A tristeza deve ser alimentada com migalhas de pão e aquele mesmo tantinho de água que se dá a um passarinho.

***

Falar de poesia? Ora, a poesia. Que prosa é essa?

***

Sua voz era rouca, como a de um marinheiro encharcado de rum. Eu gostava dela assim.

***

Tudo bem, pode me levar para a cama. Mas antes me diga palavras românticas. As mais belas que você souber.

***

As vírgulas às vezes atuam em nós como certas mulheres: nos fazem perder o fôlego.

***

Chamar alguém de musa está dia a dia mais constrangedor. Os poetas não têm mais o direito de ser assim ultrapassados.

***

Era um arco-íris dos bem pequenos, filhotinho. O menino o salvou da enxurrada, levou-o para casa e o enxugou todinho, cor por cor.

***

Ele é um pernóstico. Não tem objetivos, tem escopos. Chama-os também de desideratos.

***

As redes sociais andam tão punitivas. Um dia desses me proibiram de desgostar de um poeta que eu ainda nem tinha chegado a ler.

***

Tenha pudor: nunca diga as palavras pundonor e pudicícia. Mas, se disser, não suplique perdão nem clemência. Peça desculpas, já está bom.

***

Política e polícia costumam estar próximas – e não só no dicionário.

***

Se escrevo cada vez menos é para manter o pretexto: sou um poeta bissexto.

***

Trabalhou a vida toda para ser reconhecido. Conseguiu. Alguém diz seu nome e instantaneamente vem o comentário: ah, aquele velho dos sonetos…

***

Olhe, é aqui que eu crio os passarinhos. Alpiste do melhor, água de chuva. Você acha que meus gatos são bonitos por quê?

***

Um advérbio, um adverbiozinho de nada, pode pôr um texto a perder. Completamente. Ou salvá-lo. Improvavelmente.

***

Compostura: quando tocavam a campainha, a tristeza pedia cinco minutinhos para se arrumar.

***

Ultimamente, quando penso em morrer, lateja em mim uma mornidão, uma sensualidade, quase um gozo. Ter lido os românticos foi meu vício e meu pecado.

***

Feliz é quem, no último instante, pode simplesmente fechar os olhos, sem medo e sem esperança.

_________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas