Tomates e os desejos de domingo [Elyandria Silva]

Posted on 04/09/2018

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O domingo é uma gaveta cheia de desejos. Fim do ciclo de uma semana, início de outra. Já falamos aqui da segunda-feira, dispensa comentários. Bolsas brilhantes, plataformas coloridas, relógios reluzentes, dentes brancos, cabelos lustrosos. Uma passarela de desfiles sob o cheiro das comidas, o gritinho das senhas, o múrmurio escancarado das fofocas e segredos, as conversas de botequim. Meninas lindas e magricelas somem atrás de montanhas de batatas fritas e refrigerantes. Garotos com o elástico da cueca aparecendo se auto-afirmam na conquista de jovens fêmeas enquanto circulam, em bandos, pelo shopping.

Não tem tomates no supermercado. Em outro está muito caro. Não compro, não como, não lembro do dito cujo enquanto não baixar o preço. É possível que ninguém queira saber sobre isso, não importa, é automanifestação contra o poder inflacionário. Em O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, uma epidemia de cegueira contagia a população, vagarosamente, criando uma situação de impotência e desespero. Sem opção, todos vão sobrevivendo como podem, uns morrem, outros ajudam entre si. Cá estamos todos assim, cegos e impotentes no país da fantasia, com tomate ou sem tomate. Tudo bem, isso é assim mesmo. Deixem os tomates para lá, temos assuntos mais importantes para nos ocupar, como por exemplo, os candidatos para a presidência do Brasil.

Numa mesa próxima a mulher grita com o marido, dá uma ordem, levanta e sai. Bonita a moça, e estressada. Ele não retruca, fica quieto, arregala o olho, recua na cadeira, olha para os lados. Ela vai pegar comida, ele fica com a filhinha. Ela volta, come, sorri e brinca com a filhinha, o ignora. Ele conta passarinhos invisíveis no ar. Alguns amores são alinhavados por tensões e crises.

Semblantes sérios mastigam de tudo: massas, calzones, pizzas. Divagam, engolem, inventam pensamentos, bebem. Gostariam de se divertir mais, aproveitar mais aquele momento, dar boas risadas, mas o domingo não deixa. Para uns o domingo queima as pequenas felicidades do final de semana, para outros adoça os desejos realizados em 48 horas. E desejo de domingo é que nem algodão doce, coisa boa que some rápido. Os tomates, as eleições, a sagrada instituição da família, as belezas de domingo, mistura tudo e “toca o barco” porque a vida segue.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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