Ressurreição [Daniel Russel Ribas]

Posted on 03/09/2018

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Todo dia, me surpreendo com a capacidade e dedicação que as pessoas têm em causar dor. Seja em outras ou em si mesmas, minha impressão é temos um dispositivo desconhecido, programado para tomar decisões das quais vamos nos arrepender mais tarde. Várias vezes. Apesar de já ter uma ideia dos efeitos que repercutirão, ainda assim, optamos pelo caminho errado. Cabeça dura, fraqueza, emoções mais fortes do que a razão; tantas razões para o fracasso. E, ao mesmo tempo, tantas desculpas. Tentar botar a culpa em algum elemento incontrolável não nos livra do fato de que, no final das contas, fomos nós os agentes diretos do ato que nos transformou em vítimas. O fato é que errar constantemente é nos dá a certeza de que somos humanos. É com o sofrimento que percebemos nossa vulnerabilidade. E, assim, nos preparamos para a morte. Quanto mais dor acumulamos, a morte perde seu atmosfera cruel e injusta. Morrer se torna um final inevitável. A consequência para uma série de acontecimentos que não foram como imaginávamos. Pode soar sombrio, mas não é tanto. Quando menciono “acontecimentos que não foram como imaginávamos”, também me refiro a coisas boas. Cada vez mais, acredito que a vida nada mais é que a acumulação de acidentes sobre os quais não temos controle. A maioria das pessoas não gosta de acreditar nisso. Eu próprio gosto de pensar que tenho controle sobre minha vida, o que, no fundo, sei tratar de uma mentira deslavada. Será, então, a revolta por saber somos folhas ao vento que nos faz provocar acontecimentos cujos eventos já sabemos como prosseguirão? Ou será que o desejo de não temer mais a morte nos faz cair num espiral de culpa e violências? Nesse caso, o tal dispositivo não seria autodestrutivo, mas um mecanismo de preservação. Ao mesmo tempo, como uma droga sintética, nos dá a ilusão artística de podemos criar uma realidade. A única forma que teríamos de nos preparar e a outros para o inevitável, também seria uma forma de autoafirmação. A dor é como uma droga: terapêutica, enganadora, incrivelmente disseminada, viciante e fora de controle. A dor não seria um mal, mas até uma necessidade.

E depois, quando a dor passa, o que ocorre? Cito Nietzsche: “O que não nos mata, nos fortalece.” A dor é nos faz perder o medo e sua propagação nos faz sentir menos impotentes. O pós-dor, por sua vez, nos dá mais força para seguir em frente. As cicatrizes nos estimulam a vencer. A rir da cara da morte, como se gritássemos para ela: “Pelo menos, algo eu consegui! Nossas feridas nos deixam determinados. Já tivemos uma pequena mostra da morte, mas continuamos aqui. Se continuamos, é porque somos fortes o suficiente para tentar outra vez. E ser ousados. Já experimentei, aguentei e, agora, me aguardem, pois estou mais preparado do que na última vez.” A imagem que me vem à mente, é como se estivesse no fundo do mar ou de um lago, nadando até a superfície, quase sem fôlego, achando que vou morrer. Finalmente chego a superfície e respiro longamente. A pergunta que fazemos após o retorno é: “E agora? O que vamos fazer?” Pode ser agoniante, mas, enquanto tivermos a capacidade de sentir, saberemos que nosso trabalho ainda não está pronto e que temos uma razão para continuar. Mesmo que você tenha conquistado todo o mundo conhecido. Você não está morto. Ressurgiremos das cinzas.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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