Lista de presentes [Rubem Penz]

Posted on 31/08/2018

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Em muito breve ele habitará o primeiro espaço fora de casas (sim, há duas a serem deixadas para trás). A fase é linda e remete a todos os movimentos que nós, os mais experientes, já fizemos num passado recente ou remotíssimo: pedir uma mesa de jantar aqui, um jogo de panelas acolá, uma cama, eletrodomésticos novos ou usados, sofá, bacia, balde. Listar o mínimo para ter a autonomia e o conforto possíveis, e o desconforto provável. Mas, ter o que mais?

Saudade, por exemplo. É bom especialmente para jamais perder o caminho de volta.

Disposição – fundamental. Fazer por si, aprender com os erros, passar trabalho, tudo isso exige disposição e, sem ela, parecerá fardo aquilo o que seria aprendizado.

Humor. Muita coisa pode dar errado, a toda hora, de surpresa, sem surpresa, pela manhã, tarde ou noite. É quando o humor salva.

Calma, antes de mais nada. Serão diversas novidades ao mesmo tempo e isso, naturalmente, impõe certa vertigem. Então, respira-se fundo e se busca o prumo.

Memória. Guardar com carinho cada movimento: o receber das chaves, levar os móveis para dentro do apartamento, passar a primeira noite e o primeiro café… Inestimáveis momentos.

Coragem. O bom jovem sempre tem e, por isso, há que se levar já na primeira viagem. Mesmo.

Amor. Cada um pegando de um lado para que não pese. Costas bem eretas e corações pulsando em uníssono. Carinho, conforto, paciência.

Meia responsabilidade. Certinho: fifti-fifti. Para que, nos eventuais balanços de mérito e culpa, ninguém saia no prejuízo.

Noção de grandeza. Sim, é um passo e tanto, mesmo quando se está em busca da necessária autonomia. Levar consigo o tamanho da coisa toda fará diferença.

Esperteza. Atenção aos detalhes, ouvido aos conselhos, sensibilidade. Olho vivo, fogão desligado e certeza nas fechaduras.

Maravilhamento.

Esse conjunto não deixa ninguém imune às frustrações, tristezas, maus momentos, cansaço, vontade de jogar tudo para o alto, solidão – bagagem vital, tão involuntária quanto certa. Ainda assim, suaviza em boa medida.

Como sei? Ah, nem pergunte.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas