Frases com desconto [Raul Drewnick]

Posted on 26/08/2018

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Um andrade juntou-se a outro andrade e, por não terem o que fazer, inventaram a modernidade.

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A última coisa séria que o Brás produziu foi Lourenço Diaféria.

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Era a época da vertiginosidade.  Diziam olha lá o Mário e o Oswald de Andrade e enquanto a gente perguntava onde, onde, eles já tinham sido levados pela velocidade do bonde.

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Um verso qualquer um faz. Uma ode, só quem pode.

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O primeiro passo para quem quer escrever frases curtas é livrar-se dos advérbios de modo. Impiedosamente.

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Dispense o Google. Qualquer chato, mesmo um principiante, sabe se Romeu era Montecchio ou Capuletto.

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O chato não fala de um assunto; discorre sobre ele.

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Um chato é aquele que no meio da conversa passa a acreditar em Deus, só para nos contrariar.

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Depois que os chatos vão embora, as festas poderiam melhorar um bocado, se eles não fossem invariavelmente os últimos a sair.

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Um chato consciente do seu dever sabe o nome de todos os afluentes do Amazonas.

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Depois de passar pelo varal de calcinhas, o vento sai zumbindo baixo, sonso como uma abelha embriagada.

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O coletivo de crianças é algazarra.

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Uma das mais preciosas vantagens de se estar morto é não ser convidado para o júri de um concurso de sonetos.

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O coletivo de autos é processo.

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O calcanhar de Aquiles era muito mais charmoso quando tinha hifens.

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Tire da luxúria o pecado – e será melhor um café requentado.

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Cantada de poeta concretista: quer ir lá em casa aparar minhas arestas?

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Cantadinha religiosa: se você quiser, eu me ajoelho aqui, minha santinha.

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Cantada fina: tenho pensado se não está na hora, já, de levarmos nossa amizade para a cama.

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Os chatos não têm um assunto predileto. São especialistas em todos.

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Numa editora, o chato é aquele que enche os livros de notas bibliográficas.

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Além de tocar a campainha, o chato naturalmente bate palmas.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas