Quando tive medo de Guimarães Rosa [Elyandria Silva]

Posted on 21/08/2018

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Existem certas experiências, situações, vivências que ficamos postergando por muito tempo, evitando-as, por medo. Enquanto uns passam a vida sem coragem outros enfrentam, mesmo temerosos. Um dos meus medos sempre foi ler Guimarães Rosa. É, é isso mesmo, eu tinha medo dos livros dele, mas acima de tudo do Grande Sertão Veredas. Não me achava intelectualmente à altura para entendê-lo. Durante anos ouvi de tudo sobre este escritor: “… mas depois que você lê Guimarães, nossa, aí sim tudo muda …”, “Minha vida de leitor se divide entre antes e depois de Sertão Veredas.”, “É, gente, ler Guimarães é uma experiência única, ímpar.”. Essas foram algumas das descrições que ficaram gravadas em minha lembrança, desde cedo, sobre o escritor do sertão. E então pensava comigo mesma “Gente, preciso me preparar para ler Guimarães, preciso estar pronta para essa tal experiência, não posso simplesmente pegar o livro e sentar para ler”. O tempo passou, li muito, de tudo. Vez ou outra, pelas livrarias que passava avistava o livro lá, mas não comprava, simplesmente olhava. Numa Bienal do Livro de São Paulo decidi comprá-lo, o trouxe na bagagem, coloquei na biblioteca. Um ano e meio depois, recentemente após ter terminado de ler outro romance, fui até a biblioteca escolher. Naquela noite fiz quase um ritual e finalmente entrei no Sertão. Nas primeiras páginas compreendi o porquê de ouvir aqueles comentários acerca da obra.

Guimarães criou uma nova língua, cheia de estilo narrativo e originalidade. As histórias do sertão, com seus personagens tão reais que quase pulam do papel, vão se desdobrando com sequência cinematográfica. Por vezes, fica difícil aprender a nova linguagem e adentrar as histórias com a profundidade merecida, então, volto e leio tudo de novo. Poucas páginas por dia, não é o tipo de livro para se devorar, definitivamente não. A pergunta que não quer calar durante a leitura é como ele conseguiu escrever daquela forma. Perdi o medo, no lugar dele entrou o respeito, porém, existe um incômodo obscuro, não sei explicar exatamente. O fato é que esse é o tipo de romance que desconforta, exige esforço, te quer ali além do corpo e da alma, te quer TODO (A). Quem não o leu pode estar pensando “Gente, mas o que tem tanto esse tal de Guimarães?”. Só entrando no sertão para responder, mas posso garantir que concordo com o cara que disse que é uma experiência única a qual desejo que você, leitor, também vivencie.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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