Hoje é o eclipse [Daniel Russell Ribas]

Posted on 20/08/2018

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Li que eclipses são importantes na astrologia. Simbolizam o fim de uma fase e o início de outra. Se será melhor ou pior, que é uma informação relevante, ninguém diz ou assume não saber. Aguardo ansioso. Para alguém que vive de promessas, sobrevivendo à realidade que não corresponde às expectativas, é uma grande oportunidade.

Pesquisei mais e descobri que o Arpoador é o melhor lugar para observar o fenômeno. Será parcial e começará assim que a lua surgir. Estarei lá. Eu e várias pessoas, cada um com suas razões. Será um bom tópico de papo descontraído junto futebol ou redes sociais; uma ocasião para levar seus amantes e cristalizar o sentimento, como se aquilo fosse apenas para os dois e os outros meros coadjuvantes, penetras numa festa particular. De alguma forma inconsciente, todos parecem saber que é uma nova era está surgindo e não querem perder o ritual de passagem.

Para onde vamos? O que acontecerá com o mundo? Como nossos corações e mentes reagirão? Reconheceremos nossos erros? Seremos pessoas melhores ou mergulharemos no abismo? Ao encarar o fundo do poço elevado aos céus, com o contorno de uma faísca branca, o que faremos? Abraçaremos as trevas ou nos agarraremos àquele resquício de luz? Onde está a redenção? Na escuridão, onde todos são cegos e iguais, ou na luz, tão bela e dotada da capacidade de criação? Queremos fraternidade ou renovação? O resumo de todas as dúvidas de uma nova época, que só agora ganha formas.

Quando a Terra estiver Sol e Lua, a porta se abrir, algo sairá ou entrará. Tocará a todos nós. Se nossas mentes estiverem abertas, talvez nossos desejos se tornem reais. A imaginação se fortalecerá de tal maneira que se libertará e virá ao nosso encontro. Assim que encararmos nosso reflexo, em meio à transição, ele perguntará se o início é o fim ou fim é o início. Tremeremos como seres de carne e osso. Talvez alguns ouvirão um questionamento obscuro, a pergunta fatal, e outros estarão presos demais no evento para prestar atenção.

Eu fecharei meus olhos. Irei me ajoelhar, juntar as mãos com força, pedir. Trincarei os dentes. Não me importarei com a sujeira ao meu redor. Tudo para implorar perdão por todas essas coisas que eu fiz. Assumo minha culpa. Fui dominado por obsessões de origem nebulosa. Quando tudo estiver quase escuro, responderei ao enigma, esperando não ser devorado no processo.

Quero desde já que o eclipse acabe logo. Preciso de luz. Todos nós.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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