Deu galho [Rubem Penz]

Posted on 17/08/2018

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Interessante o caso acontecido agora, agorinha mesmo em Porto Alegre. Resumidamente: um morador de rua tipo maluco beleza resolveu subir na vida e montou um apartamento improvisado no alto de um flamboyant do Parque Moinhos de Vento – à vizinhança, aliás, dos metros quadrados mais caros na capital gaúcha. Levou as parafernálias para cima, ajeitou aqui, acomodou acolá e dormia com uma vista privilegiada. Um rapaz jovem, forte, bem-apessoado. Alguém cujo termo “vulnerável” não cola na pele tatuada. Enfim.

Tudo ia bem, até ser descoberto pela reportagem. Ganhou destaque na contracapa e página quase inteira no miolo do jornal. De um momento para o outro, celebridade! Já sei seu nome, o que faz para ganhar a vida, seus gostos (chuva e vento aumenta a aventura de morar tipo Tarzan), seus hábitos. Teve até coluna adicional com especialista, um sociólogo para imprimir um certo lustro no fato, para completar o bom jornalismo. Eram sete da manhã quando “Miti” entrou na minha vida.

Na hora do chá, pensando em escrever, depois de abandonar uns dois temas promissores e investigar se um terceiro me dava bola, abre um destaque no canto direito da tela trazendo a novidade de que o sem-teto acaba de ser retirado do local, e a “casa na árvore” – seu sonho infantil, segundo a notícia – fora desmontada. A nota esclarece ser este um “pedido de moradores”. Hum. Talvez não seja uma verdade completa. Ele estava lá, fazendo seu Yoga a cinco metros de altura sem ser importunado tem tempo. O problema foi a repentina fama.

Nossa cidade convive com o flagelo dos moradores de rua faz anos. Quando eu era criança, morria de medo do Velho do Saco, como era conhecido um mendigo que circulava pelo 4º Distrito. E a migração das pessoas sem estudo ou profissão do interior para os grandes centros, e as crises econômicas, e o álcool, e as drogas cada vez mais disseminadas, e as administrações enxugando gelo, e tudo junto só fez crescer a população dormindo nas calçadas. Velhos do saco, jovens do saco, mulheres do saco, crianças do saco, famílias inteiras do saco. Recicladores, pedintes, guardadores de carro, desesperados, dependentes, doentes.

Poucos invisíveis ganham uma notinha de pé de página. Quase ninguém a honra de ser entrevistado. Dá-se mais destaque ao logradouro (Viaduto Otávio Rocha, pontes da Av. Ipiranga, marquise da loja tal) do que ao ser humano. “Olhem para mim”, poderia ser a súplica. Mas olhar demais também tem chance de dar galho. Este foi o caso do Miti. Seu apartamento no Moinhos de Vento jamais resistiria ao estrelato. Perdeu, playboy. Antes o repórter mirasse o chão, os buracos nas ruas.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas