Frases sem graça e sem norte [Raul Drewnick]

Posted on 12/08/2018

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Se o seu estoque de lágrimas acabar, recorra ao poeta mais próximo.

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Tempo bom aquele dos poetas passarinhos, como o Quintana. Os de hoje voam só de avião.

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Uma coisa decente que posso dizer de mim: eu nunca seria meu ídolo.

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Os poetas sem talento deveriam ser compensados com uma tristeza especial.

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Diga que eu sou isto, isso, aquilo, mas nunca fale mal do meu estilo.

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Na aurora de minha vida, eu quis ser poeta. Às vezes tenho uma recaída.

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A velhice alheia eu não sei. A minha não fica bem nem com roupa nem sem.

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A palavra gramática é de esfriar qualquer relação.

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Ao meio-dia o sol veio dar uma espiadinha no velório e por uns instantes coloriu as maçãs do rosto do defunto.

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Os poetas românticos tossiam rosas vermelhas no lenço.

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Não acreditem em quem diz que vai morrer de amor mas vive preenchendo joguinhos da megassena.

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Nos romances policiais, os detetives ouvem o depoimento até dos criados-mudos.

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Que sorte daninha. O amor nunca puxa a brasa para a minha sardinha.

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Da prosa sabe-se o que se pode esperar. Da poesia deve-se esperar sempre mais.

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Amor que dá certo não dá poesia.

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Os chatos são mais ou menos recentes. Não há menção a eles, por exemplo, entre as sete pragas do Egito.

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Tudo que não me fale artisticamente não me diz absolutamente nada.

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Quando falo mal de mim, não me desmereço. Simplesmente me reconheço.

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O maior feito que pode alcançar um poeta de setenta é chegar aos oitenta.

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O defunto é um personagem intransitivo.

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 Há vinte anos eu era um tantinho mais passável. Perdi a chance de ser um defunto apresentável.

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Sinto-me hoje tão protagonista quanto um frango numa natureza-morta.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas