Nunca saberemos [Rubem Penz]

Posted on 03/08/2018

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… onde ficou aquele guarda-chuva novinho em folha que carregávamos na mão no dia em que abriu um sol redentor e, claro, não estará no lugar quando dele precisarmos.

… que terá sido aquela a última vez que escutamos o bordão divertido e tosco do amigo fanfarrão, isso antes de seu coração pregar em todos uma peça.

… por que a rotina nos afastou de pessoas outrora íntimas e, pior, a razão de habitar uma certeza intuída de que jamais retomaremos os laços.

… se a proposta que mudaria a nossa vida foi acertadamente recusada, e tal especulação será de todo inútil, ainda que volte sazonalmente em balanços silenciosos.

… a real impressão que deixamos nos outros, por mais bem-intencionadas que sejam nossas ações, e por mais desastrosas, também.

… em que escaninho da memória guardamos as dores mais pungentes, até que, acidentalmente, um fato novo nos faça reviver o indesejado.

… o que (não) passa pela cabeça do calouro que esquece a letra da música exaustivamente ensaiada, do ator que aguarda a deixa, do baterista que não lembra qual é o tema pelo título e a banda aguarda a contagem para iniciá-lo (ops, isso eu suspeito saber).

… se é neste banho que o gás vai acabar, e se isso será antes ou depois de lavarmos a cabeça, ou se o frio que passaremos – caso aconteça – resultará em gripe.

… por onde andou de verdade aquele alimento que está exposto no bufê do restaurante por quilo, ou a razão muito estúpida de ter lembrado disso antes de servir-se.

… o destino das tampas de caneta Bic, dos diversos pendrives – e o que tinha dentro deles era inofensivo, mesmo? –, daquele livro que jurávamos ter, dos versos feitos para uma Ana Maria.

… o que pensa o cão que nos olha bem lá dentro dos olhos, ou o gato do vizinho ao cruzar elegante pela sacada da nossa casa.

… se o pessoal da mesa de bar será generoso ou sarcástico quando somos os primeiros a deixar o recinto porque tocou o telefone e a desculpa para o sumiço é meio furada.

… o tempo exato em que virá na cabeça o nome do filme que iríamos indicar, ainda que tenhamos certeza de que será no instante em que essa informação será inútil.

… a razão de aquela pessoa ter-se demorado tanto olhando para nós no corredor do supermercado – era conhecida?, estava nos confundindo?, queria alguma coisa?, suspeitava de algo?

… quando será que faremos aquilo pelo qual seremos lembrados ao partir, ou se já fizemos e sequer imaginamos, ou se alguém lembrará vagamente das quantas oportunidades perdidas.

… o alcance do amor ofertado.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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