Amarelo [Rubem Penz]

Posted on 20/07/2018

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Em Porto Alegre, 19h

A Ipiranga está com suas quatro pistas enfileiradas de automóveis e as motos costuram freneticamente o engarrafamento. Estou a vinte metros da Ramiro Barcelos e vejo o artista de rua fazendo seu show instantâneo. Umas quantas aberturas e fechamentos de sinal nos separam e, por isso, é como se eu estivesse no mezanino do teatro – não há clareza.

Em Porto Alegre, 19h10min

A Ipiranga segue seu ritmo alucinadamente lento. Já estou na altura de uma fila P e, assim, noto que o homem vestido de pele dourada parece atirar objetos para cima e buscar de volta em sua performance. Mas, estranho: deve ser algo pequeno, nada de tochas ou malabares. Algumas buzinas ensaiam suas vaias (ou serão aplausos?).

Em Porto Alegre, 19h20min

A Ramiro Barcelos, vejo bem, está tão cheia de almas inquietas quanto a Ipiranga. Já vejo o vigoroso show na altura do gargarejo, no máximo uma fila C, talvez mais perto. E o espetáculo, ao menos para mim, está por terminar – questão de segundos. Há nitidez na atuação: o homem de metal joga nada para cima, muito menos junta algo de volta. Porém, seus gestos são tão perfeitos a ponto de o motoqueiro à minha esquerda acompanhar com a cabeça o subir e o descer na mágica mímica.

Em Porto Alegre, 19h21min

Não tenho centavos nos bolsos para alcançar ao homem e, por triste que pareça, isso não me dói. Ainda assim, abro o vidro para me desculpar. Instintivamente, levo minha mão na direção da mão dele e simulo um despejar. Não há nada, é o que ele me diz, compreensível e irônico. Também do nada inventa um sorriso, simula entregar-me algo em troca e desaparece na luta por seu cachê.

Em Porto Alegre, 19h40min

Sequer cheguei à ponte da Perimetral. Agora abrem-se cinco pistas para bem lotar de gentes nos carros, nos ônibus, nas motos, nas bicicletas. E ainda não sei onde acomodar este vazio.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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