Obsolescência [Tiago Maria]

Posted on 12/07/2018

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O filho chega da escola cabisbaixo, joga a mochila num canto e tranca-se no quarto. No dia seguinte a mesma cena. O pai preocupa-se, quer saber o que está acontecendo, vai até o quarto ter com o menino. No quarto, um cartaz com o número dois cobre,  inteira, a porta do roupeiro. As cobertas, cortinas, o abajur, nas paredes, adesivos no espelho, tudo estampado de números dois. “ O que foi, filho, está tudo bem?”. “Nada, pai, quero ficar sozinho”.

Para tentar entender o que estava acontecendo, o pai leva o filho à escola no dia seguinte. Chega no pátio e observa que todo o aluno, com exceção do seu filho, carrega seu número dois a tiracolo. Aquilo ardeu no esterno daquele pobre paizinho. O filho, queixo enterrado no peito, sem despedir-se do pai, some na algazarra entre cabeças e os algarismos. Desconsolado, triste de doer, o pai recorre aos bolsos, aos familiares,  gerentes de bancos e agiotas. Compra o bendito número dois.

Chega de volta da escola naquele dia ainda mais derrotado. Sequer nota o pai no sofá segurando um reluzente número dois.  Mais uma vez foi direto pro quarto. O pai, confuso, ainda tenta uma aproximação. Sem chance. O menino, com cara enfiada no travesseiro, não quer saber da surpresa. “Deixa aí em cima, pai, depois eu vejo”. O pai deixa o dois sobre a bancada, recolhe o cartaz rasgado que está no chão e sai do quarto em silêncio.

No pátio da escola, agora, o menino arrasta aquele dois sem levantar os olhos. Os outros meninos manuseiam e exibem-se uns aos outros com seus quatros em cores vivas, alguns com textura, outros prateados. Ainda tenta esconder seu dois miserável, mas logo é cercado por outros meninos que, apoiados em seus quatros, apontavam praquele dois famigerado e riam, riam de dobrar a risada.

O pai, que havia observado toda a chacota do portão da escola, não perdeu tempo. Torrou o que ainda lhe restava do dinheiro, que tomou emprestado a juros compostos e tratou de escolher o quatro mais cintilante que tinha na loja. Embrulhou em papel de presente e deixou sobre a cama. Espiava pela fresta da porta quando quase foi atingido, bem no olho, pela ponta do número quatro que o filho arremessou na parede.

No caminho da escola, pediu para que o pai lhe deixasse um pouco antes do portão de entrada naquele dia. Com seu quatro todo remendado, caminhando pra não chegar, quase foi atropelado pelos meninos do turno integral com seus números seis, novíssimos, puxados por barbates como se fossem pipas. Volta até o carro e entrega o quatro capenga para o pai. “Toma, pai, não vou levar hoje”.

Doído na alma, o pai nem pensa duas vezes, vende o carro, renegocia com os bancos, faz novas promessas aos agiotas, liga para os parentes mais distantes, arrecada o dinheiro todo e comete a loucura da sua vida. Afinal, não fosse por um filho, por quem mais cometeria a loucura da sua vida? Colocou em uma caixa. Fez dedicatória na embalagem. Sobe de escadas, com aquele trambolho.

Ansioso, não via a hora de o menino chegar da escola para recebê-lo com o presente que lhe custou tanto sacrifício. O menino chega. Não cumprimenta o pai e já vai rasgando a embalagem. Paralisa. Sacode a cabeça parecendo não acreditar no que está diante de si. Retira o seis da caixa, olha por baixo, inclina em direção à luz, sacode a cabela mais uma vez e estilhaça o número no espelho da casa. “Oito, pai, todo mundo tem um oito e tu me aparece com esse meia bosta aí?

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 37 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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Posted in: Crônicas