Relato de uma viagem de ônibus [Daniel Russell Ribas]

Posted on 09/07/2018

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Este é um texto de 2009. Com exceção de que está ensolarado, não notei muita diferença entre essas tragicomédias de situação e as que encaro em minhas viagens de ônibus agora. Bom, a televisão em alguns transportes inibe em parte essas interações. Fora isso, nós mudamos? Leiam e comentem esta versão atemporal de vale a pena ver de novo.

“Muito bem. Estou no ônibus 570. Sem ar condicionado. Lotado. Do lado de fora, chove. Janelas fechadas. Sem ar condicionado. Abafado. Neste ambiente, os passageiros, sem saída, conversam.

Primeira situação:

Um senhor carregado de sacolas entra, forçando seu caminho até a traseira do ônibus. Parece sem fôlego.
– Abra as janelas. Tudo fechado… vai espalhar HIV…
A garota atrás de mim pergunta para a amiga:
– HIV se pega pelo ar? Não sabia.

Vivendo e aprendendo.

Segunda situação:

Dois amigos, mais à frente no ônibus, batem papo:
– … sabe aquele com a caveira?
– Édipo?
– Isso! Édipo!

Ser ou não ser? Não ser.

Terceira situação:

Uma mulher de meia idade, usando sandálias (é impressionante a quantidade de pessoas que estão de sandálias na chuva…), pede para saltar e se posiciona na saída. O motorista para e, logo abaixo, uma imensa poça escura encara.
– Moço, pode ir mais pra frente, que aqui tem uma poça enorme?
O motorista atende o pedido e para de novo uns poucos metros adiante. Em frente à porta, um imenso carro preto bloqueia a passagem.
– É, acho que aqui não é melhor não…

Esse comentário foi meu. Mas outra alma espirituosa me ouviu. E fez sua tréplica.
– Vai saltar como? Por cima do carro?

Fingi que não era comigo e fiquei quieto.

Quarta situação:

As garotas atrás de mim (as mesmas sobre a mutação do HIV) notam que a chuva deu uma trégua:
– Gente, parou de chover. Por que não abrem as janelas?
– É. Quer ir pra sauna, vai pro clube.

Eu abri minha janela.
Sou como Groucho Marx nesse sentido, não pertenço a nenhum clube que me aceita como sócio.”

Os clássicos nunca morrem. Nem os cults.

 

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas