Notas falsas 3 – Futebol [Rubem Penz]

Posted on 06/07/2018

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Estamos diante de uma Copa do Mundo com poucos placares em zero a zero e verdadeiras goleadas quando o assunto são os memes. Nela, a pergunta que me fiz: a insistente pós-verdade dos campos seria facilmente desmascarada pelo árbitro de vídeo? Ou o árbitro de vídeo é, ele mesmo, essencialmente a pós-verdade? Bom, entre a simulação e o fato, duvide de quem mete o apito onde não é chamado – não faltará quem peça o pênalti só para consagrar o goleiro. E por falar neles, segura essa rosca, Taffarel:

Fair-play – é a maneira de recomeçar o jogo na velocidade normal. Diferentemente de Fair-fast-forward, quando se deseja recomeçar o jogo com urgência; Fair-slow-forward, quando o negócio é amarrar o jogo, e Fair-rew, quando o jogador repõe a bola retardando para o goleiro.

VAR – sigla que assume muitos significados, dependendo do nosso humor: VAlém da Regra; Vou Armar um Rebu; Vítimas Ainda Restarão; Vaza Antes de Ruir; Vejam, Arnaldo e Ronaldo; Volta e Arruma isso, Rapaz!

Grande Círculo – os amigos e os amigos dos amigos que se aproximam por causa de uma pelada de sábado, e marcam outro jogo, quem sabe um campeonatinho, e que tal convidar o primo do Moacir para ser o juiz, já que ele apita na várzea…

Meia-lua – depende… Tem a meia-lua crescente, lá no campo adversário, na qual o atacante força a jogada para levar uma falta pois, sabia?, o apelido do nosso cobrador é Zico. E tem a meia-lua minguante, que fica na nossa grande área, e todo cuidado é pouco pois o cobrador deles tem o apelido de Bebeto.

Intermediária – lugar do campo onde se escalam para jogar os tímidos, os procrastinadores, os indecisos, os descomprometidos, os medíocres, o noivo da amiga que apareceu sem ser convidado e ninguém conhece, os chatos de chuteira (versão futebolística dos chatos de galocha) e os cronistas.

Tiro Livre Indireto – recurso pelo qual uma pessoa solteira interessada em alguém escala uma terceira para sondar o terreno ou, em linguagem figurada, pôr a bola em jogo. Não adianta se lançar direto, pois é proibido.

Volantes – servem para mudar de direção, corrigir o rumo. Diz-se ser volante esportivo o pequeno, volante de Kombi um tipo Neymar (fica deitado) e volante de caminhão aquele mais corpulento. Na bicicleta chamamos guidão.

Quarto-zagueiro – peça da casa para a qual recorremos no instante em que é preciso restaurar a ordem nos ambientes sociais quando chega uma visita de surpresa. Tudo, de jornal aberto a livro fechado, de prato de sanduíche a mantinha para cobrir as pernas, de tablet a chinelo de dedos, ruma para o quarto-zagueiro, de cuja porta não passará ninguém.

Impedimento – assim como em #Me too e #Não é não,  é a regra pela qual um atacante fica proibido de seguir com seus jogos se não houver ao menos um sim entre ele e seu objetivo. Ideal para fazer alguns andarem atrás da linha civilizatória.

Ala – posição especialmente desenvolvida para escalar aquele piá de merda com 16 anos, testosterona nas alturas, fôlego de ave migratória, disposição para correr em bolas perdidas e em passes longos e em auxílio da defesa e cobrindo a cabeça de zaga e na recomposição durante um contra-ataque e… Vai, guri!

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas