De pés, corpo e alma [Marco Antonio Martire]

Posted on 04/07/2018

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A Copa na Rússia e há quem pergunte se o cérebro do jogador de futebol seria diferente do cérebro de outros atletas. A dúvida é alimentada por nossos cientistas, demandados nessa questão pelo pessoal dos debates, os loucos das varandas que apreciam investigar tais pormenores, detalhes como quantidade de neurônios em funcionamento no córtex do vizinho, ou em ação no lado direito da atriz bombada na selfie do momento. Vá discutir e dizer não, que não lhe interessa, te obrigam a bebericar leite condensado como quem aceita oferenda. A verdade é que os cientistas são os curiosos na ponta de lança da sociedade, pronto, são eles na moita, falei. Agora, se eles não têm qi no VAR, desculpe o mau jeito, melhor esperar que voltem das férias os roteiristas.

Diziam no tempo das abelhas que cerebral era o homem que sabia usar a massa cinzenta, e no meio campo acrescentavam: ordem e método. A ordem extraviou e o método diz que vai vai vai para o espaço, tentar a aventura de se aliviar sentado em Marte. O caso ficou assim: o pessoal marrento do jaleco branco na sua vez de propor assunto espalha que jogadores de futebol deteriam em seu poder mais neurônios associados ao uso dos pés que o normal, uma vantagem tão hereditária quanto provocada pelos intensivos treinamentos desde os sonhos de criança. Pés não são tão controláveis por nós quanto as mãos, dizem os estudiosos.

Pensava nessa onda de investigar com máquinas sofisticadas até os pés moços com os quais chutamos as bolas, quando li que um trabalhador chamado Ibrahim Diallo se deu mal em Los Angeles. O cara foi demitido por uma máquina. Não teve olho no olho, nem cara a cara. Uma máquina mandou o Ibrahim para casa mais cedo: você! Pode ir a pé e poupe o tanque de gasolina. Uma alma danada de boazinha teria esquecido de renovar, conforme combinado, seu contrato de trabalho e as máquinas assumiram a responsabilidade, deixa com a gente, que a gente resolve com as mãos nas costas. Tacharam o funcionário de ex-funcionário. Seu crachá de entrada foi desativado, seus acessos à rede de trabalho foram removidos e dois caras apareceram na sua mesa com ordens, ordens recebidas por e-mails automáticos de escoltá-lo para fora do prédio. Diante dos colegas todos, sem que seus superiores conseguissem explicar. Ibrahim demitido. Por uma máquina.

Levaram três semanas para entender a matemática do episódio. Ibrahim não desistiu, decidiu mudar de emprego. Afinal, foi escoltado para fora do prédio como um ladrão. É fato: a gente muda. Diz o especialista em inteligência artificial, Dave Coplin:

“…só porque o algoritmo diz que a resposta é esta, não significa que realmente seja.”

E os pés dos jogadores? A resposta é vaga: penso na exatidão careta do sistema métrico. Cá embaixo, os pés. Cá em cima, a cabeça. Trabalho que dá sincronizar isso.

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Marco Antonio Martire
 é carioca, graduado em Comunicação pela UFRJ e pós-graduado em Língua Portuguesa pela UCAM. Foi premiado pelos contos de “Capoeira angola mandou chamar” (publicados em 2000 pela Fundação de Cultura Cidade do Recife), lançou a novela “Cara preta no mato” em formato ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. É membro do coletivo Clube da Leitura. Escreve para a RUBEM (www.rubem.wordpress.com) quinzenalmente às quartas-feiras. “O gato na árvore” é seu primeiro livro de crônicas. 

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