Ainda não! [Madô Martins]

Posted on 23/03/2018

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Nos últimos dias, a posição da mulher na sociedade voltou a ser tema de debates, alguns ponderados e outros nem tanto, mas de todo modo ampliando as reflexões para além das questões de gênero, ao destacar que, como ser humano, temos deveres e direitos que devem ser observados.

Para que isso aconteça, no entanto, ainda é preciso que as mulheres se tornem mais unidas e partilhem seus ideais e que, embora contrariadas, se empenhem em demonstrar aos homens que somos seres pensantes, capazes, independentes e realizadores. Não é porque a luta para alcançar nosso reconhecimento é antiga que precisa ser belicosa. O feminismo radical há muito saiu de moda. Recentemente, ouvi antiga história de uma feminista a convidar uma amiga intelectual a reunir-se em praça pública para queimar sutiãs. O convite foi recusado por uma simples constatação: a mulher jamais usara sutiãs…

Hoje, embora mais mulheres estejam conscientes de seu papel, ainda existem as que insistem em vestir fantasias que já não lhes cabem. É o caso, por exemplo, das garotas do tempo nos noticiários da tevê – instituição tão antiga quanto concurso de miss, para aumentar a audiência. Ainda agem como mulher-objeto, brincando de sedução através de roupas justas, decotes profundos e saltos altos… sem falar nas estratégicas viradinhas de lado que realçam o traseiro, eterno fetiche nacional.

Pior é que o mal contaminou também as âncoras. Num simples noticiário regional, a apresentadora, em determinado momento, deixa a bancada e se põe de corpo inteiro diante das câmeras, com as mesmas roupas justas, saltos e postura de lado… Algumas até se envaidecem, quando elogiadas pela beleza em colunas sociais ou de fofocas, e chegam a fazer selvies ainda dentro do cenário, para publicação na internet. São boas profissionais, acredito que chegaram a âncoras pela eficiência, mas se deixam envolver por esses condicionamentos machistas.

Situações assim me fazem lembrar de quando morei no Japão em 1974 e assistia, após a meia-noite, jornais da tevê russa em que a apresentadora, a cada bloco, despia uma peça de roupa, terminando o programa completamente nua… Era a maior audiência das madrugadas. E duvido que alguém se lembrasse das notícias.

Fora dos holofotes, a distorção também existe, entre as de qualquer idade. Mulheres que se esquecem que somos o lado delicado da espécie e assumem atitudes agressivas ao embarcar no ônibus, disputar um assento, dirigir; que falam palavrões mais do que os homens; que se mostram grosseiras ao tratar com os que julgam inferiores; que bebem além da conta; que não dedicam ternura às crianças; que se vestem com vulgaridade…

Desde a triste lenda de Eva, nos empenhamos em provar nossa índole versátil e magnânima, afinal, somos mães, temos uma visão panorâmica da vida e intuição aguçada, gostamos de amar e ser amadas. Estamos muito acima das aparências, mas nem sempre lembramos disso. Em alguma esquina do tempo, esquecemos o quanto somos poderosas e insubstituíveis. Algum dia, espero, o respeito chegará.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 14 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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