Passado, presente, fuTUM TUM TUM [Tiago Maria]

Posted on 22/03/2018

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O Júnior ousou mostrar que os pretos eram iguais aos brancos. Que os direitos de uns eram iguais aos dos outros. E que, na verdade, não existem uns e outros, pois somos todos os mesmos, pobres animais com as mesmas agonias e iluminações nesse aquário que insistem chamar de Terra. O Júnior, que era preto de marré de si, disse verdades constrangedoras aos poderosos senhores brancos americanos. Uma Remington, calibre trinta ponto seis, desfigurou o rosto do Júnior em abril de mil novecentos e sessenta e oito. Ele tinha trinta e nove anos. Foi o início do fim da segregação racial, explícita, nos EUA. O Júnior tinha um sonho, que ainda não se materializou por completo.

Seu Vlado, naturalizou-se brasileiro. Quer dizer, escolheu ser brasileiro. Chegou aqui fugindo da guerra. Mudou de nome para tornar-se referência na luta pela restauração da democracia após o golpe de meia quatro. Formou-se em filosofia na cidade de São Paulo. Envolve-se com dramaturgia. Assume a direção da TV Cultura onde chama atenção dos militares por suas ideias, consideradas comunistas. Na campanha contra sua gestão, no partido de sustentação dos militares, a Arena, o senhor José Maria Marin, já naquela época, mexia seus pauzinhos. Seu Vlado, agora Vladimir, trinta e oito anos, foi espontaneamente prestar depoimento ao DOI-CODI. Torturado com choques elétricos e banhos de água gelada, acabou “suicidado” pela ditadura. Só em dois mil e doze seu registro de óbito foi ratificado, passando a constar “morte em decorrência de lesões e maus tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (DOI-CODI)”.

Quem visse a irmã Dorothy embrenhada nas florestas da vila Sucupira, no município de Anapu, estado do Pará, podia jurar que era uma nativa. Formada na universidade de Notre Dame, Califórnia, emitiu votos de pobreza, castidade e obediência. Por aqui, participava da pastoral da terra, defendia a reforma agrária, os direitos dos trabalhadores do campo, ajudou a criar a primeira escola de formação de professores na rodovia Transamazônica. Aí sim, criar uma escola de professores, foi a gota d’água. Enfureceu os fazendeiros. Na manhãzinha do dia doze, em fevereiro de dois mil e cinco, aos setenta e três anos, numa estradinha de difícil acesso, perguntaram se estava armada e ela mostrou-lhes a bíblia, relato de testemunhas contam que ela ainda leu alguns versículos das bem aventuranças ao seu algoz. Foram seis tiros, um na cabeça e outros cinco ao redor do corpo.

Agora, agora, dois mil e dezoito, uma Silva, mulher, preta, trinta e oito anos, socióloga, feminista, crítica da intervenção federal no Rio, homossexual, pobre, militante dos direitos humanos, engajada nas demandas das comunidades carentes, no combate ao crime organizado infiltrado na polícia, moradora da Maré, eleita pelo voto popular como representante legítima de uma esperança imensa, com mais de vinte projetos apresentados em menos de quinze meses de mandato, futricando na lama da lama da história, que não é bem essa que aparece na televisão, furou o sinal, aquele velho sinal vermelho habitual. Agora, agorinha, quatorze de março, foi executada com três tiros na cabeça e um no pescoço. Formadores de opinião ligados à direita iniciaram rapidamente uma campanha difamatória a seu respeito ao espalharem noticias falsas nas redes sociais.

Hoje estão todos no passado. Entanto, já, queremos nosso futuro.

 

Martin Luther King Jr        1968 – 39 anos – Presente!

Vladimir Herzog                 1975 – 38 anos – Presente!

Dorothy  Stang                   2005 – 73 anos – Presente!

Marielle Franco                  2018 – 38 anos – Presente!

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 37 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras

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Posted in: Crônicas