Comer água [Alexandre Brandão]

Posted on 18/03/2018

6



(Imagem: Átila Roque)

Ao Andrezinho.

Meu amigo me conta. Depois da consulta ao oftalmologista, tomou o elevador, já ocupado por duas mulheres. Uma delas reclamava de certa tonteira, reação a um medicamento tomado durante um exame, ele especulou em silêncio. Era chato ficar ouvindo aquilo, mas iam os três do décimo andar ao térreo e não havia alternativa. No oitavo andar, ganharam a companhia de uma senhora, uma senhora mais velha que todos juntos. A recém-examinada, mal o elevador se pôs em movimento, voltou a recitar sua ladainha de mal-estar. A velhinha não titubeou e disse: “Minha filha, você tá é gorda, obesa, precisa fazer exercícios, caminhar todos os dias e comer menos. Quando estiver com fome, distraia a fome com água.” As outras mulheres, por sorte, pelo menos foi assim que meu amigo nomeou o silêncio delas, não reagiram. Sem saber o que fazer, ele enfiou a cara no chão e torceu como nunca pela chegada ao térreo.

Essa coisa de beber água para tapear a fome me remete ao livro de um primo, o Dirceu Moreira Brandão. Claro, o Dirceu é pouco conhecido, alguns talvez tenham ouvido falar do pai dele, o poeta, escritor e deputado federal constituinte (estou falando da Constituição de 1946, aquela que tem, entre seus signatários, além de meu tio, Jorge Amado) Wellington Brandão. Mas o Dirceu também escrevia (sim, já não está entre nós) e escrevia bem — chegou a ganhar concurso literário, a escrever em jornais de Minas. Livros, no entanto, teve um, o saborosíssimo “Coisas de mascates” (edição própria). Suas histórias são as de boiadeiros, de gente que lida com a terra, que vive de fazer negócios, barganhas. Aliás, um dos melhores contos do livro, “Uma estranha vocação”, fala de um sujeito que troca — troca não, trama, um sinônimo muito particular usado nas Minas Gerais, beirada de São Paulo, cenário das histórias — tudo que cai em suas mãos. Um tipo assim não era raro na minha infância. Meu pai era um deles. Certa vez, no final da década de 1960, ele saiu para vender seu gado em Belém do Pará, longe, e bota longe nisso. Levou, salvo engano, uma semana na boleia de um caminhão, contando as paradas para descer o gado numa fazenda qualquer, onde batia e pedia pouso e pasto. Num mundo com precária telefonia, o velho sumiu, dois ou três meses sem dar notícias. Quando voltou, numa narrativa que realçava as mangueiras da cidade, a chuva diária, a rede para dormir, contou que trocou o gado por um carro. Mas onde estava o carro? Ah, em Goiás, no caminho de volta, já tinha se desfeito dele. Acho que trocou por gado, completando um ciclo que já dava a mão ao próximo. Ganhamos duas coisas de presente: uma vitrola portátil e guaraná em pó. Adoramos o primeiro e odiamos o segundo: um insulto às famosas caçulinhas (a garrafa pequena do refrigerante industrializado).

Voltas e voltas e não falo do conto do meu primo, razão pela qual puxei esse rosário. Em “Conversa de vaqueiros”, dois amigos conversam antes de dormir. Lembram-se, assim do nada, de algumas fomes por que passaram. Manuel Cabrito conta de uma vez em que ele e um amigo foram levar uma vaquinha a uma fazenda, mas a bicha era tão danada que eles, numa distância pequena, gastaram o dia todo. Quando chegaram lá, fome era significado miúdo para o que sentiam. Manuel comentou com seu parceiro de lida, e este, muito educadamente, perguntou ao dono da fazenda se não tinha jeito de comerem um requentado. O senhor, que já jantara, desculpou-se e encarregou a mulher de fazer a comida. Manuel tinha fome urgente, que promessa de comida não matava e o cheirinho do refogado só faria piorar. Para não perder a cabeça quando o alho queimasse no óleo, resolveu dar uma caminhada. Comeu uns matinhos, mas “não adiantou nada, porque insultou o estômago e ele pensou que eu estava jantando e aí ficou pior”. Manuel foi então para o riachinho e começou a comer água. “Comi água até encher. Mastiguei mesmo a água, que era para o estômago pensar que eu estava jantando uma sopa e dar tempo para esperar a janta do Zeca de Melo.”

Se a velhinha intrometida tivesse lido “Coisas de mascates”, poderia ter trocado a tagarelice pelo silêncio ou, pelo menos, por uma conversa sem importância, dessas necessárias quando o elevador desce e, se não parar, pode muito bem atracar no inferno. Inferno lembra morte, e é bom lembrar-se dela, pois o homem que trocava tudo por tudo, um dia, “entre uma conversa meio alterada e dois goles de pinga”, “barganhou dois tiros. E levou manta.” “Morreu tramando. Como nasceu e viveu.” Mas, prestem bem atenção, houve uma conversa meio alterada.

____________

* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

Anúncios
Posted in: Crônicas