Orla de Capão da Canoa – 2,6Km [Rubem Penz]

Posted on 02/03/2018

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Calçadão. Na ida, sentido Centro–Atlântida, à nossa esquerda, ora uma descida suave de areias escurecidas pela umidade litorânea, ora uma subida para as últimas e pequenas dunas mais claras, cobertas por vegetação natural e intercaladas por pequenas trilhas de sarrafos deitados para dar acesso da cidade ao mar. Mais ao fundo, ainda à esquerda (na ida), ele, o mar. O típico mar gaúcho: incansáveis ondas de espuma branca percutindo e revirando uma água marrom esverdeada, tudo a se perder de vista mirando a nordeste ou a sudeste. Fosse pela mudança de horizonte, papar, só no Uruguai, e olhe lá.

À nossa direita (não se perca, seguimos na ida), uma ciclovia, uma avenida de quatro pistas lotada de automóveis estacionados de modo oblíquo junto ao canteiro central (poucos passeando lenta e ruidosamente) e uma parede de prédios – quase todos muito, muito novos. Edifícios residenciais altos, mas não na medida Camboriú ou Punta del Este, apenas bem diferentes dos tradicionais “três andares” que compunham minha paisagem infantil e juvenil (aqueles ainda estão ali em sua histórica simplicidade, cercados por trás e pelos lados de irmãos grandes e presunçosos). Por quadras, nenhuma notícia dos antigos chalés.

Ao centro, ora cruzando por nós, ora ao passarmos, pessoas fazendo longas sombras no entardecer meridional. Com a volta do ano letivo, há poucas crianças, alguns adultos jovens (talvez também gozando dias de férias) e muitos idosos esticando sua estada em um dos melhores períodos climáticos do ano, ainda mais quando descansados da presença solicitante dos netos. Há quem caminhe com vigor, há os que passeiam com seus cães de apartamento, há quem trilhe de mãos dadas por décadas. Uns sorvem o chimarrão nos bancos ou cadeiras dispostas nas praças, casais em lua-de-mel fazem selfies, o grupo com seus coolers outrora cheios de Polar latão esperam pelo ônibus da excursão em oferta de fim de temporada. Ciclistas, skatistas e fundistas ultrapassam-se correndo.

Na volta, sentido Atlântida–Centro, tudo outra vez, invertido. As sombras, agora, estão ainda maiores, como mais intensa nossa respiração. Bastam 40min para ver o quanto o tempo incidiu pujante na orla de Capão da Canoa em 50 anos, hoje uma cidade turística referencial. Existe pouco, quase nada, igual ou parecido com o que eu via na meninice, mesmo ela já sendo há época um dos mais importantes balneários da região.

Enquanto isso, na Praia do Barco, forte mudança, apenas em mim. Isso sim traz saudade. E como.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

 

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Posted in: Crônicas