Soltinhos e talvez crocantes [Raul Drewnick]

Posted on 17/12/2017

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Sou dos que acreditam que uma musa nórdica pode melhorar a obra e a biografia de qualquer poeta.

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Tínhamos tanto a dizer. Dissemos amor – e tínhamos dito tudo.

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Personagens antigos davam tratos à bola, ficavam com a pulga atrás da orelha e falavam com seus botões.

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Que o julgamento alheio, se não me tornar mais belo, não me torne mais feio.

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De modo geral, o que se pode dizer dos defuntos é que muitos deles teriam melhor aspecto se morressem dez anos mais jovens.

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Minhas mãos descobriram pacientemente o formato de minha melancolia, sabem que ela é como um bebê e a embalam cada vez mais maternalmente.

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Quando os frutos desandaram a despencar sobre sua cabeça, o poeta concretista lamentou ter feito sua macieira com areia, tijolos e cimento.

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O caminho do poeta, por mais longo que seja, é sempre um retorno à simplicidade da infância.

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Se for dividir o sofá com um gato, você deve reservar-lhe o melhor lugar, aquele que, quando ele sai por uns minutos, é imediatamente ocupado pelo sol.

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Editor é aquele tipo que estaria disposto a atender o rapazinho metido a Rimbaud, se não fosse hora do cafezinho.

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Os gênios que conheci e que sonhavam com Estocolmo não passaram do Tucuruvi.

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A simpatia que causam certos mortos dura só até a abertura do seu testamento.

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Rejeitareis a poesia – e a poesia vos deixará. Conquistareis a verdade – e a verdade vos entediará.

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Triste o espetáculo dos poetas velhos que, metidos a declamar, transformam rosas em perdigotos.

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Tenho, talvez, duas qualidades: sou tolo e perseverante.

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Uma regra elementar de decoração é: a melhor poltrona é a do gato. O resto se ajeita por si só.

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Acho curioso dizerem que alguém se dedica inteiramente à literatura. Existe algum outro modo?

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De vez em quando o poeta deve falar de amor, para não pensarem que ele é sempre fútil  na escolha dos temas.

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Aprendemos como são falsos os elogios quando passamos a depender deles.

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Em 2020, possivelmente antes, ninguém falará de mim. Como em 1937 ou 1854.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas