O tigre de Curitiba [Mariana Ianelli]

Posted on 16/12/2017

2



Para Luís Henrique Pellanda

Falam que falam no vampiro de Curitiba, que ninguém nunca viu e não há quem não conheça. Mas Curitiba tem também um tigre. Tigre urbano, discreto, atento, desconfiado, embora nada avesso ao contato com homens e urubus. Ele conhece pelas próprias solas os descaminhos das ruas, ama o acaso brotando delas, gratuito, por entre o comércio de mulheres e milagres.

Leitor de Sterne, Tolstói, Kafka, Nelson Rodrigues, Ernesto Sabato, Flannery O’Connor, Orhan Pamuk, esse tigre é também ele um farejador de narrativas, tigre contista, cronista, um caçador das antigas em seu andar camuflado de curitibano da gema. Lá vai ele pela Saldanha Marinho, os sentidos aguçados. Um personagem pode surgir a qualquer hora, nem que seja um rato. Tudo é bem-vindo para um caçador de histórias. Sendo um evento estranho, sem lógica aparente, fértil em mistério, ainda melhor.

Lá está o cronista com sua alma de flâneur plantada num banco de praça. Ele tem seu secreto mapa verde do centro encardido da cidade: as tipuanas da Pracinha do Amor, os chorões da Fernando Moreira, os plátanos do Passeio Público, os ipês da Comendador, os jerivás da praça Osório, as velhas figueiras da praça Tiradentes, o mamoeiro e a araucária do Jardim Twardowski. Rosto impassível de fera, por dentro ele se comove com a resistência dessas árvores, que não se deixam morrer pelo desprezo de quem passa, nem pelas tempestades nem pelo lixo.

Sim, o tigre de Curitiba se comove com as árvores das praças. Se comove com tudo o que resiste em farrapos de fantasia, luzes de vagalumes urbanos, de maconheiros, bêbados, traficantes, policiais, mendigos, ou brasas de sonho consumível à luz do dia, de cantores de rua, profetas de rua, travestis, pregadores, namorados, crianças, putas, floristas. Da mitologia de uma cidade, seus personagens fantásticos: o Sombra Amarrada, o Encosto Bilheteiro, a Pequena Sereia da Boca Maldita, o Homem-Onça, o Dragão das ladeiras do São Francisco, os Crentes Cantores da Cracolândia.

O cronista vai à rua quando ver o céu não basta. Mesmo com o povo dos telhados fazendo fumaça, um gaviãozinho num para-raios, um pedaço azul da Serra do Mar ao longe ou uma família de urubus na cobertura do prédio ao lado, o céu não basta. É preciso ver nos vãos, nos buracos, nas canaletas, entre os seres do chão, debaixo de um viaduto, à beira de um rio seco. É preciso levar os olhos por aí, que observar imaginando enquanto se caminha é uma ciência. Ciência das antigas. E, do céu à terra, todos são bem-vindos, o velho da gaita, as ciganas, os punks, um homem e seu aviãozinho de ferro-velho, os zumbis d’água, os meninos das praças, os malabaristas de sinal, e – como esquecer? – o amigo Billy, o pelicano de asas amputadas.

O cronista tem seus companheiros de ocasião, e pode acontecer de alguma coisa, a qualquer hora, morder seu coração, alguma coisa que de repente se intromete nesse habitat de emoções submersas, como uma menina quase nua, um dia, mergulhou num tanque de tilápias. Sim, um tigre também sente saudades. Caminha pelo centro da cidade inventariando tempos mortos: o extinto bar do Joe, a extinta mercearia Viana, o extinto cine Condor, o extinto cine Plaza. Vai evolando em história o que perdeu seu corpo físico, então o cronista também divaga dentro de circuitos rotineiros, enquanto caminha também está passeando por suas diferentes idades. Onde as saracuras do Capão Raso que ele tigre caçava quando menino? Extintas.

Menino num campo de estrelícias, poeta de colégio, ilustrador de parábolas bíblicas, vocalista de uma banda de rock, repórter, pai de duas meninas que por si mesmas reabilitam o sentido de certas palavras escalavradas, como esperança. Um tigre de muitas vidas, esse de Curitiba. Que também viaja, pega estrada, alça voo Brasil afora. E nem é preciso que vá assim tão longe. Desde a esquina ou desde Parnaíba, voltar para casa é sempre uma viagem de emaranhadas batalhas. Cronista de uma tríade de livros já, ele está aí na ativa, pelas ruas, caçando. Ao leitor recém-chegado, um aviso apenas: esse é o autor da crônica mais triste alguma vez já escrita sobre um sabiá. Palavra de fazer calar. Está lá no livro Asa de sereia, a última crônica do volume. Vá com calma, meu amigo, respire. Depois tente esquecer, se você for capaz.

__________

Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

Anúncios
Posted in: Crônicas