Encontro de Natal [Madô Martins]

Posted on 15/12/2017

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Abro o jornal e surge um cartão de visitas com o número de um celular.

– C.E., bom dia. Você entrega meu jornal todas as manhãs e gostaria que passasse aqui para pegar uma lembrancinha de Natal.

– Ah, passo sim. A que horas devo ir?

Combinamos para a manhã seguinte. Programei o despertador para as 8, separei o presente e fui dormir pensando que, até então, C.E. era apenas uma voz, que não me deixara nem mesmo supor de que idade. Para ele e o carteiro (outro desconhecido íntimo), havia escolhido camisetas, uma G e outra GG, torcendo para ter acertado no gosto e tamanho. Ambas, em embalagens de crepom e laços, exatamente iguais. Deixei que o acaso sorteasse os destinatários.

Chove. Tomo café e coloco o presente dentro de um saco plástico, para protegê-lo dos pingos. Às 9, toca o interfone.

– É o entregador de jornal – identifica-se C.E.

– Já vou descer, só um instante!

Chego à escada com o embrulho, a curiosidade aumentando a cada degrau. C.E. é um jovem adulto, veste capa e está ao celular. Ficamos frente a frente, enquanto ouve outro a quem entrega o jornal e está reclamando de algo. Ele responde educadamente e promete passar por lá no dia seguinte.

– Que tempo, hein? – inicio o diálogo.

– Pois é, mas como lhe prometi, vim. O trânsito está tão ruim, que preferi a bicicleta em vez da moto…

C.E. tem olhos impessoais, mãos grandes e unhas crescidas. Será que toca violão?

– Bem, coloquei seu presente na sacola, para não molhar. Espero que goste, mas qualquer coisa, pode trocar.

Só então, o olhar de C.E. ganha ternura.

– Ah, se é dado de coração, é sempre bom! – diz, sorrindo pela primeira vez.

Sobe rapidamente na bicicleta, trocamos agradecimentos e votos de Feliz Natal. Ele desaparece na rua molhada e eu corro para a proteção da marquise que leva à escadaria.

Agora temos rostos, nessa história fugaz de todo dia. E, quando pegar o jornal na caixa do correio, sei que lembrarei dos olhos e mãos de C.E., que passa por aqui a semana inteira, bem cedinho, chova ou faça sol, para me trazer as notícias do mundo.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 14 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas